sexta-feira, 10 de outubro de 2003

Pedroso - desculpem a insistência

Não fiquemos pela rama, pelas últimas horas.
O processo Casa Pia tem nove meses. Desde o início que se falava de uma rede. Ainda ontem a provedora Catalina dizia, com aquele ar pio que a caracteriza, que é preciso não esquecer que as crianças foram «continuadamente abusadas».
Até agora, a rede limita-se a uma dúzia de arguidos. Parece-me pouco para uma «rede» que explorava centenas de crianças.
Apesar de a provedora falar que vem aí um terramoto e de os jornalistas «muito bem informados» sobre a matéria, como a Felícia Cabrita, terem anunciado repetidamente dezenas de detenções, até agora nada. Lembram-se? Eram futebolistas, artistas, deputados deste partido, antigos deputados do outro partido. Até agora, nada. Há meses que não há uma detenção. O juiz Teixeira, em vez de estar a instruir o processo, aparece todos os dias nos tribunais de Mafra e arredores em julgamentos de lana caprina.
Estranho, tudo muito estranho.
Falemos então de Pedroso.
Foi preso com grande aparato, com o juiz Teixeira a subir e descer no elevador do Parlamento com uma câmara da SIC à ilharga. Toda a gente achou normal.
Depois, puseram o nome do Ferro Rodrigues nas primeiras páginas dos jornais. Depois, houve aquela história da fotocopiadora do ISCTE. Patético. O denunciante foi ao Ministério Público. Centenas de pessoas já foram ao Ministério Público, mas nós só soubemos deste. Curioso.
Depois, vem a cena macaca das escutas. Uma mulher que passa por homem, uma conversa banal entre o Ferro e o Costa que é atirada para o processo como grande conspiração.
Agora, vem o Constitucional dizer que se atropelam passos processuais e a Relação a elaborar um acórdão quase cómico com base nas «provas» e «testemunhos» que o juiz tão carinhosamente tinha coleccionado.
Agora, digam-me: não é isto uma palhaçada?
Eu não gosto da palavra cabala. Eu preferia não acreditar que tudo isto é dirigido politicamente. Mas os factos, meu Deus, os factos não me deixam.
E notem, para memória futura: os culpados, os abusadores, os malandros, estão a rir-se. Algures.
E o Jaquinzinhos acha que tudo se resume a erros de um juiz. A continuar assim, daqui a uma semanas vai ficar toda a noite à espera que o Pai Natal desça pela chaminé.
Era preferível fazer como o Comprometido Espectador, que só lê blogues com os quais concorda (não vá o Diabo tecê-las...), que não acredita nos textos do Público sobre o acórdão e que ainda tem coragem para escrever: «E tudo se complica ainda mais quando há outros arguidos no caso e quando das informações relativas a esses arguidos podem constar coisas complementares que ajudaram a indiciar Pedroso.» Não sei o que mais me comove: se o total desconhecimento de como funciona a justiça, se a fé cega com que dislata com tanta facilidade.
É claro, se a conversa não agradaa, podemos sempre falar das lateralidades - a recepção do Pedroso no Parlamento, as declarações do Lacão, o aproveitamento político da justiça... Pois!