quinta-feira, 6 de maio de 2004

A indignação quando nasce é para todos

Admitamos que Pacheco Pereira tem razão - «a maioria dos jornalistas portugueses são simpatizantes da causa palestiniana e hostis a Israel» - e que, por isso, a liquidação dos líderes do Hamas tenha merecido mais destaque que a da mãe israelita com os seus quatro filhos.
Admitamos que isto pode ser dito, assim, de forma taxativa: a) que os jornalistas portugueses são maioritariamente pró-palestinianos, ignorando-se que a maioria dos directores de jornais portugueses são pró-israelitas; b) que o destaque dado aos actos violentos de cada um dos lados depende dos próprios actos, ignorando que por vezes o resto da actualidade obriga a outro tipo de hierarquias.
Admitamos tudo isso...
Mas isso é discutir uma parte do problema, ignorando o que se passa a montante.
Porque, da parte daqueles que só se indignam com o Hamas e Arafat, também não se ouve grande indignação pela forma como o governo de Israel desrespeita insistentemente a lei e os acordos que ele próprio assina. Estou a falar da implantação de colonatos em territórios internacionalmente reconhecidos como integrando um estado palestiniano, estou a falar da construção de um muro que viola fronteiras mais que estabelecidas, estou a falar de road maps e outros acordos que, mal assinados, são de imediato ignorados por Israel.
Acresce a tudo isto que Israel, sendo um estado democrático e tendo o apoio da mais potente democracia do mundo, teria especiais responsabilidades na gestão do problema.
Critérios dúplices na questão do Médio Oriente? Claro que há. Para todos os gostos, para todos os lados.