vendredi 31 octobre 2003

What makes the world go 'round

A Visão traz o Jardim Gonçalves na capa, a Exame escolheu o Ricardo Salgado. Ainda bem que, de vez em quando, alguém nos lembra quem verdadeiramente manda.
Não admira por isso que o homem que limpa as folhas de Outono esteja interessado em saber quais são as 1000 Maiores.

Verde, código... buraco ao centro

Fui levar a minha filha à escola e, no sítio do costume, lá estava a carrinha do dinheiro em cima do passeio. Desta vez, tinha ao lado a do Panrico.
- E se eles se enganam e põem os donuts na máquina do multibanco?

jeudi 30 octobre 2003

Fofinhas

Tinha dezanove anos e um peluche.
Um dia, hei-de começar assim um romance.
Do universo de mistérios femininos, este é um dos que mais me fascina.

Dezembro em Outubro

Eram dez da noite e o sistema sonoro do Metro não parava de anunciar:
«Informamos que os passes para o mês de Dezembro já se encontram à venda, evite as filas do fim do mês».
Que pena não haver mais Novembros.

Bom, lá vou eu repetir-me

Sinceramente, acho que querem dar comigo em maluquinho de tanto me repetir, de tanto me repetir, de tanto me repetir... perdão.
Por exemplo, dizendo-me, como faz o Liberdade de Expressão, que a invasão americana do Afeganistão se justifica porque, antes, o Afeganistão já tinha sido subjugado pelas armas dos talibãs.
Ora gaita, mas então vamos descer ao mesmo nível de barbaridade dos facínoras dos talibãs?
Vou, então, repetir-me: tenho tudo contra os totalitarismos, nada contra as democracias, excepto quando as democracias se armam em totalitaristas.
Vou, então, repetir-me: tenho tudo contra os totalitarismos, nada contra as democracias, excepto quando as democracias se armam em totalitaristas.
Desculpem...
[Quanto à questão de fundo: se um barbeiro me cortasse o cabelo à Titanic, aderia ao islamismo só para poder mandar cortar-lhe as mãos.]

Links, poesia e impostos

Há três blogues da Weblog.com.pt que são um primor. E nem sequer falo do conteúdo, falo do grafismo (nada exuberante, mas claro, elegante) e dos autênticos serviços públicos que servem nas colunas de links.
São eles o Adufe, o Janela para o Rio e o Memória Virtual. O Janela para o Rio, além do mais, até tem um documento, em pdf, que ensina a poupar nos impostos. Tudo o que seja para impedir o défice de de cair abaixo dos 5 por cento é bem vindo ('tou a brincar, 'tou a brincar...).
Por falar em iniciativas meritórias. O incansável Retorta e a não menos Janela Indiscreta acabam de dar à luz o primeiro livro de poesia da blogosfera lusa. Uma recolha interessantíssima, para passar os olhos, a alma, o coração, nos intervalos das crispações em que nos metemos.
Obrigado a todos.

mercredi 29 octobre 2003

Será chinês?

Se há coisa que admiro no J., do Cruzes Canhoto!, é a paciência.

O Iraque, os EUA, a ONU (uma polémica)

No Mar Salgado encerraram a polémica, mas ainda há duas ou três coisas para dizer. Se ficar a falar sozinho, paciência. Habituei-me bastante nos últimos meses.
Por exemplo, de nada vale ao NMP vir com tiradas do estilo «manifeste-se contra os americanos à vontade» porque, além de não me manifestar (no sentido mais comum da palavra), não sou anti-americano. Quero é gozar da liberdade de, a cada momento, poder criticar decisões e políticas. Parece que isso hoje incomoda muita gente. Paciência, outra vez.
A questão central que NMP e Neptuno levantam é a do unilateralismo versus multilateralismo. Acho justo, essa é a questão mais séria e ampla que o problema do Iraque levanta.
É claro que, para debater a coisa seriamente, tenho de ignorar o que NMP escreve sobre contratos petrolíferos e outras incidências económicas. De outra forma, corria o risco de me desmanchar a rir e de o debate ficar por aqui.
O Neptuno debruça-se sobre o funcionamento da ONU. Entendo muitas das preocupações que levanta, mas tenho uma série de objecções.
Não me parece que os EUA, enquanto única superpotência, tenham algo a perder ou corram o risco de ficar reféns da ONU. O passado deixa-nos muitas pistas. Por exemplo, os EUA bloquearam a recondução de Boutros Ghali, um secretário-geral que não era do seu agrado, os EUA limitaram radicalmente a acção a Unesco, cortando o financiamento, quando a agência prosseguiu políticas que não lhes agradavam, os EUA bloqueiam sistematicamente toda e qualquer decisão que belisque o seu aliado preferencial no Médio Oriente. O peso específico dos EUA manteve-se intacto nas últimas décadas. Não me parece é que seja aceitável transformar a ONU num departamento da diplomacia dos EUA.
O Neptuno diz depois que muitos países (exemplifica com a França, vá lá saber-se porquê...) agem por motivações egoistas. Meu caro, mas não é sempre assim? Não é assim, por exemplo, na União Europeia? Ou o meu amigo acha que existe altruismo nas relações internacionais? (Ah, desculpem, temos a excepção do Bush que foi implantar a democracia no Iraque...)
Por último, a questão dos países não democráticos. Meu caro, a verdade é que eles existem e temos de conviver com eles. Quer maior hipocrisia do que o apoio tácito que os EUA dão à tal China que refere, ou à Rússia (acha que aquilo é uma democracia?), isto só para falar nos maiores.
Quanto ao facto de esses países terem por vezes posições de destaque, como a presidência da Comissão de Direitos do Homem, isso também me incomoda. Mas, num órgão colegial, a presidência acaba por ser meramente operacional, o que contam são os votos. Obrigar esses países a participarem dessas decisões parece-me, de resto, que até pode ter um efeito positivo - ouvem das boas, são obrigados a lidar com o problema, talvez até percebam melhor o isolamento a que se votam.
[O Planeta Reboque juntou-se ao debate]

Sampaio (uma insistência)

CAA [Mata-mouros] é coerente. Já o sabia. Não gosta de Sampaio, não suporta o homem, abomina o discurso, ainda mais a (falta de) acção. Isto nem sequer é uma crítica, apenas uma mera constatação. A provar essa coerência está o facto de insistir em instalar a Presidência no museu de Arte Antiga, quando, de acordo com o que diz, o mais indicado seria mesmo o Panteão Nacional, agora que aquele espaço se abriu a actividades de índole diversa.
Não gostaria de prolongar o debate para lá do tolerável - não quero convencer CAA, nem ele terá essa pretensão. Mas, se tiver paciência, diga-me como resolveria esta equação:
Sampaio tem, muito claramente, dúvidas sobre a política do Ministério das Finanças, nomeadamente quanto à sacralização do combate ao défice. Já o expressou repetidamente (o Diário Económico tem hoje um trabalho interessante sobre a matéria - muitos economistas concordam com o PR) e presumo que tenha transmitido essa preocupação ao primeiro-ministro. Mas que mais pode fazer? Exigir a cabeça de Ferreira Leite? Exigir a mudança de política de um Governo com legitimidade eleitoral? O quê, então?

Que o silêncio esteja connosco

Encontro-me em estado de coma anímico. Peço, por isso, desculpa aos amigos (e, principalmente, aos adversários - notai que não tenho inimigos...) que por aqui passam a altas (e a baixas) horas, mas não me encontro em condições de blogar em condições (que raio de figura de estilo é esta - ou será apenas falta de estilo?).
Tudo isto porque, por desprecaução (confirmem no Houaiss se a palavra existe, se não, registem-na e recebam as royalties) liguei os três canais de televisão à hora de jantar. Não foi, claro, ao mesmo tempo e isso talvez tenha sido a minha perdição - acabei por ver (e ouvir, senhores, e ouvir...) barbaridades aos quilos, afrontas ao bom gosto (e até ao mau...), sem-vergonhices descontroladas (e outras bem controladas)... enfim, um estendal.
Pois é, primeiro foi a provedora Catalina, virginal em suas pias causas, aquele chorrilho de comiseração, aquelas ofensas só aparentemente inocentes à Justiça (com jota grande) e à democracia (cada vez com dê menor).
E depois veio a amiga do Bibi, com entrevista em directo. A dizer as coisas mais inacreditáveis, também ela com a sua cabala (meu Deus, mas ninguém se interroga sobre quem é este ser, ao que vem, porque fala, porque a ouvem, o que quer ela?).
E ainda veio o advogado do Bibi, olho vivo, rebolando, também com entrevista em directo, a dar baile à jornalista e a empertigar-se, a facturar pelo presente e pelo futuro, ali à nossa frente.
O vómito, meus amigos, tem face e voz. Vi-o hoje, repetidamente, à minha frente. Assumindo sempre novas vozes, novas faces. Mas sempre vómito.
Façamos, então, um profundo acto de higiene. Que o silêncio esteja connosco.

mardi 28 octobre 2003

Percebo-o, perplexo-me, mas não concordo

O CAA é um dos bloguistas (blogueiros?) mais activos e equilibrados do burgo. A prová-lo está o facto de por vários vezes ter premiado o TdN com os seus prémios semanais (estou a brincar...). E a provar essa regra há a excepção do carinho que nutre por Arafat (estou a falar a sério...).
[Aqueles parênteses são um plágio de um texto muito antigo do CAA. Uso-os quase como private joke só para irritar um amigo meu, que não tem blogue e que passa a vida censurar as nossas conversas em circuito fechado.]
Decididamente, o CAA não gosta de Jorge Sampaio. Longe de mim tentar convencê-lo do contrário.
Acho que o homem desempenha fielmente o papel que a Constituição lhe confere. Inércia? O CAA recorda-se, certamente, do maior intervencionismo de Mário Soares, nomeadamente contra Cavaco Silva. Mas não concorda que tudo aquilo foi um exagero? Sinceramente, não entendo onde poderia o PR intervir mais, nomeadamente pondo em causa legitimidades próprias, como sejam as da AR, do Governo, ou da Justiça, por exemplo.
Sampaio aposta claramente numa acção discreta, intramuros. Lembra-se o CAA, por exemplo, da demissão de Armando Vara? Quem a forçou? Além do mais, vários protagonistas da cena política coincidem na ideia de que o homem é incansável na tal gestão discreta de conflitos, chamando a Belém intervenientes e especialistas em várias matérias.
Dou-lhe um exemplo - na entrevista desta semana, ficou claro que o PR vê como muita preocupação a política de combate ao défice a todo o custo. Mas que pode ele fazer? Pedir a demissão da ministra Ferreira Leite, legitimada que está pela AR? Exigir que o Governo, eleito pelo povo, mude de atitude?
Nesta época de grande crispação, acho que Sampaio tem sido um farol de bom senso, de serenidade.
O CAA, pelos vistos, queria a revolução. Mas, meu caro, não será um contra-senso exigi-la ao Presidente? Não caberia isso, em primeira linha, aos partidos, ao Governo?
Eu também gostaria de mais - daí aquela bizarra fórmula verbal intercalar no título - mas eu, nos dias ímpares, ainda acredito na revolução. Azar que hoje seja 28.

Jamé?

Como diria o Bloguitica, acrescentei o ALVino aos links. Ora toma.

Fujam, vem aí o Marx

Passeava eu de blusão Levis decorado com o pin do Tio Patinhas que os miúdos me ofereceram na Eurodisney, quando Pacheco Pereira, com aquele ar austero, me olha de um quiosque.
Aproximo-me e, afinal, era o Marx na capa de um número especial do Nouvel Observateur [Ainda fui à Net para vos mostrar as semelhanças entre os dois gurus político-espirituais, mas os fulanos só lá têm a edição desta semana, também ele a merecer uma leitura - os mestres da manipulação, os chamados spin doctors, um tema actualíssimo].
O número especial tem na capa o título «Karl Marx - le penseur du troisième millénaire?». Estes franceses continuam uns provocadores, mas nunca vão até ao fim - o que faz lá aquele ponto de interrogação?
A avaliar pelo editorial, de Jean Daniel, a coisa promete. Chama-se «Un étrange besoin de Marx». Eu depois conto mais... se sobreviver.

O Império (uma resposta)

No Mar Salgado, gostaram muito do que aqui escrevi ontem sobre o Afeganistão e o Iraque. Não os quero desiludir. Por isso, aqui vai mais uma dose. Estes «disparates» não são tão apressados como os anteriores - desta vez, pensei cinco segundos antes de começar a escrever.
Começo pelo fim, pela referência de NMP às minhas «certezas» e «visão do mundo a preto e branco». É claro que NMP não leu (nem tinha que ler...) tudo o que escrevi, ao longo de meses, sobre o Iraque, Israel and so on... Se há alguém que não tem certezas sobre estas e muitas outras coisas, ei-lo aqui.
E prossigo com uma tirada ecologista - não acham os meus amigos do Mar Salgado que os EUA, enquanto única potência mundial, deveriam, além de expandir a democracia e o livre comércio à escala planetária, cuidar igualmente da diversidade cultural? A questão turística, a mim que não acho graça nenhuma a tudo o que não seja hotel de cinco de estrelas, não me parece uma questão assim tão secundária.
O Neptuno, quanto a esse aspecto, é especialmente distraído (reparou que tenho o Neil Young como musa? Ah, pois é canadiano...). E, falho de inspiração, plagia-me descaradamente. Então não fui eu próprio que me apelidei de «sacana» por estar aqui a defender «os talibãs, a ditadura, as mulheres asfixiadas»? Está bem, pronto, esqueci-me dos homens com bigode. Olhe que o Afeganistão, se espreitar bem, é capaz de ser um bocadinho mais que isso...
Presumo que, ao nível a que querem colocar o debate, poderíamos continuar com estes maniqueísmos - o Afeganistão é intrinsecamente bárbaro e só há uma maneira de o civilizar: à bomba. Mas, como o NMP ensaia um esboço de conversa séria, vamos a ela.
Entre uma ditadura (seja ela qual for) e uma democracia (mesmo musculada), prefiro sempre a segunda (peço desculpa aos meus leitores mais fiéis - estou sempre a repetir isto...).
Não me parece é nada natural que a democracia seja imposta de fora e muito menos à lei da bala. Acredito (vejam lá antiquado que sou...) em instituições como as Nações Unidas e estou convicto (Oh lírico...) que países como os EUA, se não tivessem o imperialismo escrito no sangue, podiam apostar mais nestas organizações (onde nunca perderiam a primazia, está bom de ver...), em vez de as debilitarem para depois virem dizer que tiveram de agir sozinhos porque os outros não quiseram ir.
Isto responde à questão fundamental que NMP levanta - agora que já invadiram aquilo, temos que resolver o problema. Pois é, mas os EUA continuam a tudo fazer para que isso se faça à margem da ONU e numa perspectiva unilateral. Basta ver o que se passou nas negociações para aprovação da última resolução do Conselho de Segurança. Kofi Annan, se pudesse, teria tanto a dizer sobre isto...
Nota para o Neptuno: escrevi este texto enquanto ouvia um Best Of acabadinho de sair dos Eagles, esses grandes comunas. A música não é grande coisa, diga-se, mas o som, remasterizado, é uma delícia...

Errei

Uma das coisas fascinantes dos blogues é mesmo esta - como isto é tudo ao vivo, sem tempos de mediação, e baseado nas apetências momentâneas de cada um, nunca se sabe o que sai e de que lado sai. Por exemplo, eu achava que o Mata-mouros e o Bloguitica estavam danadinhos para comentar a Entrevista do Presidente (nome catita...), mas nada. O Bloguitica anda em arrumações, compreende-se, mas querem ver que o CAA até gostou?!...

lundi 27 octobre 2003

O gajo leu-me, o gajo leu-me

Hoje escrevi aqui isto:
Só um louco poderá aplaudir o que se está a passar por estes dias no Iraque.
Os únicos que conheço - e desculpem o cinismo, único ângulo de apreciação possível - estão em Washington, embora tenham delegações abertas em todo o mundo, incluindo Lisboa.
A loucura dessa gente é insistirem que o Iraque está a caminho da estabilização e que caminha alegre e seguramente para a democracia.

Depois de me ler, um tal George W. Bush resolveu dizer isto:
The more progress we make on the ground, the more free the Iraqis become, the more electricity that's available, the more jobs are available, the more kids that are going to school, the more desperate these killers become.
Obrigado George, por teres sido tão célere a dar-me razão. Estou enlevado...

Um olho no blogue, outro no Sampaio

Jorge Sampaio está a dar uma entrevista à RTP. Formalmente, não está a funcionar - a Judite de Sousa, o Sarsfield Cabral e o José Manuel Fernandes não se atropelam, mas também não se complementam. Não há qualquer valor acrescentado pelo facto de serem três, antes pelo contrário.
Quanto ao conteúdo, é claro que não há novidades. Sampaio diz coisas muito sensatas sobre a Casa Pia e ainda mais sensatas sobre o estado do País. Mas ninguém o ouve, o País só já ouve a gritaria, recusa a serenidade. E hoje nem sequer se pode acusar Sampaio de estar a ser muito confuso, disperso ou sequer consensual. A entrevista é só sumo, mas não há quem o absorva. Os jornalistas estão colados aos faxes à espera de mais um pacote de escutas vindas directamente do Ministério Público, os políticos estão-se nas tintas para isto tudo - coisas sérias nunca ajudaram a ganhar eleições.
Acho que esta noite ainda vou ler uma crítica violenta a Sampaio. Será no Mata-mouros, só não sei que aspecto irritou mais o CAA desta vez.
E no Bloguitica (agora renovado e com novo endereço) surgirá um comentário estruturado, aberto à discussão. O Bloguítica é um espaço atento, até os silêncios regista.

Eu pelos outros

O Formato 1, que apenas descobri ontem, descreve-me assim: Um blog que escuta a própria voz. Com atenção: Terras do Nunca. O titulo diz tudo, nunca. Uma palavra original. Confesso: gosto, mas fico baralhado.
O Cruzes Canhoto, que foi o primeiro blogue a dar pela minha existência, e para o qual tenho óbvias simpatias, confunde-me com a TSF: Tudo o que se passa... É verdade, tenho-me passado um pouco.

O Império (o Iraque)

Só um louco poderá aplaudir o que se está a passar por estes dias no Iraque.
Os únicos que conheço - e desculpem o cinismo, único ângulo de apreciação possível - estão em Washington, embora tenham delegações abertas em todo o mundo, incluindo Lisboa.
A loucura dessa gente é insistirem que o Iraque está a caminho da estabilização e que caminha alegre e seguramente para a democracia.
As bombas de hoje, de ontem e, infelizmente, de amanhã, aí estão para pôr a verdade nos eixos.
Insisto - só um louco poderá aplaudir o que se está a passar. Mas, sem cinismo e nem sequer uma pinga de vingança moral, é preciso lembrar que houve alguém, muita gente, que avisou.

O Império (o Afeganistão)

Num daqueles programas com a que a Euronews preenche os compassos de espera - chama-se No Comments e é um achado televisivo: só imagens e sons, sem interpretação - passaram hoje imagens de um estúdio de rádio em Cabul, Afeganistão.
O animador convenientemente engravatado, a animadora com a face descoberta, as paredes exibindo fotos de Britney Spears (por enquanto, só as poses virginais...), a Shakira e o Ricky Martin.
Pensei: a democracia está a chegar ao Afeganistão...
Já sei, vão dizer-me: «Preferias os talibãs, a ditadura, as mulheres asfixiadas, meu sacana?»
De nada valerá dizer que preferia um pouco de decência em tudo isto. Que o Afeganistão continuasse a ser o Afeganistão e que a nossa alegada superioridade cultural e política - porque é disso que se trata - se impusesse pela sua força própria, e não pela força das armas.
Mas, é claro, o objectivo é mesmo que, daqui a um século, os turistas americanos (e talvez os japoneses...) possam viajar por esse mundo fora e ter em cada esquina um MacDonalds. Com umas especiarias afegãs aqui, umas ervas africanas ali, uns pózinhos orientais mais além. Mas sempre MacDonalds, com o respectivo excesso de colesterol, se faz favor.
Ah, a democracia?... Bom, mas essa não vem naturalmente atrás dos MacDonalds?

Os media e o poder

Leio no Mata-mouros:
Melhor Debate: entre o Abrupto, o Bloguítica Nacional, o Cidadão Livre e liderado pelo Adufe em “MUDAR O MUNDO - SERVIÇO PÚBLICO DE COMUNICAÇÃO”.
Subscrevo (o prémio), acompanho (o debate) com muita atenção e recomendo.

Sim, que é feito de si?

Alguém chegou a TdN hoje de manhã após procurar no Sapo «felicia cabrita outubro 2003».
Uma boa questão. Se souberem a resposta, digam alguma coisa.

dimanche 26 octobre 2003

Esclarecimento

Falemos claro.
Sou jornalista, sem qualquer responsabilidade editorial, do Diário de Notícias. Em 4 meses de TdN, escrevi sobre o DN uma única vez (se excluirmos as raras citações, em nada diferentes das que fiz de outros media), de uma forma que em nada fere a relação contratual e ética que mantenho com a empresa que o edita.
A forma como entendo essa relação impede-me de aqui expressar sentimentos e pensamentos sobre a vida interna do jornal, mesmo no que ela tem de interesse público.
Compreendo, também, que isso me limita (dentro de certos limites, perdoe-se a expressão..) nas apreciações que possa fazer sobre o universo mediático português. É uma restrição que me imponho. A primeira nestes quatro meses, mas quero que quem me lê tenha dela pleno conhecimento.

Amor é bossa nova, sexo é carnaval

Há um mês, falei aqui de uma crónica de Arnaldo Jabor que falava de amor e sexo, com a Rita Lee à mistura. Então não é que Rita pegou no texto e fez uma canção?
Vale a pena ouvir aqui (enquanto o link está activo, o do Jabor já não está - muda todas as semanas, pelo que só podemos ler a crónica mais recente).

Parabéns a mim

A rotina, a velocidade de cruzeiro, tem destas coisas. Não fosse a mensagem de uma leitora atenta de TdN e nem teria reparado que fez ontem, sábado, quatro meses que aqui passo quase todos os dias:
Parabéns pelo 4º mês destas terras, clap, clap, clap pelo texto sobre a conferência inter-religiosa e por favor não se arme em Paranoico Pérez, aquele extraordinário personagem do Villa-Matas (Bartleby & Cia) que nunca conseguiu escrever nenhum livro, porque sempre que tinha uma ideia e se dispunha a escrevê-lo, o Saramago escrevia-o antes dele. Laura Rubín
Recomenda-me Villa-Matas e lá tenho eu que o juntar ao Cela na próxima passagem pela FNAC. Só me dão trabalhos, repito.
Não imaginam quão recompensadores têm sido estes meses...

Luz

Não gosto de bola, por isso não tinha visto ontem. Vi hoje, nos telejornais. O Benfica é uma nação.

O sexo das coisas

Eu, por mim, recuso-me a debater tudo que tenha a ver com a condição feminina, o declínio do macho lusitano, ou os direitos dos homossexuais.
Deus ou o acaso cometeram o erro original - criaram apenas dois sexos, opção que me parece bastante limitadora. E não me lembro de, na altura, ter havido qualquer protesto.
Enquanto não forem até à raíz do problema, não contem comigo.

Ainda há salvação

«Existe outro tipo de vida consciente no Universo», diz este senhor, no JN. Só não percebo porque utiliza a palavra «outro».

samedi 25 octobre 2003

Vaias, vaias...

O Guterres foi vaiado num torneio de ténis, o Durão foi vaiado no Estádio da Luz. Viva a luta de classes! Viva!

Que três...

Nas últimas semanas, passaram-me pelas mãos (e pelos ouvidos) três discos que não resisto a aconselhar:
«HoboSapiens», de John Cale, «Cuckooland», de Robert Wyatt, e «What's Wrong With This Picture», de Van Morrison.
Trata-se de três valentes cavalheiros que há uma data de anos fazem boa música, convenientemente arrumada nas prateleiras pop/rock, mas que estravaza claramente todas as fronteiras.
Dá-se a coincidência, perfeitamente irrelevante, de todos eles andarem agora à volta dos 60. Irrevelante, só em certa medida, já que não deixa de impressionar a vitalidade e a abertura a todo o tipo de experiências que continuam a exibir.
Neste dias caseiros, ouçam-nos, sff.

Cela

Passei pelo Aviz e descobri-me um celiano. Agora tenho de ler os livros. Só me arranjam trabalhos.

(...) 2

Não sei se já vos disse que um dos mais belos templates da blogosfera é o do Barnabé...

(...)

Tenho por aí uns livros de filosofia em que se fala do silêncio. Das virtudes do silêncio. Mas nem me apetece levantar e procurá-los.

E a chuva, o que é?

Há horas que chove incessantemente. Uma chuva mansa, persistente. Como se tivesse todo o tempo do mundo. Como se sempre lá tivesse estado.
Algures em Lisboa, por estes dias, John Cale há-de cantar, há-de ter cantado, (I Keep a) Close Watch, a canção mais bela, mais triste, mais tudo que alguma vez ouvi.
«I still hear your voice at night»... como se todos tivéssemos, como se todos tivéssemos de ter, um amor inatingível. Como se a recusa fosse uma alegria.
Olho uma vez mais para a capa branca de Fragments of a Rainy Season e aquele diálogo de Shakespeare:
- It will be rain tonight.
- Let it come down.

vendredi 24 octobre 2003

Clinton e a luta contra a SIDA

Quando esteve em Lisboa, esta semana, Bill Clinton apontou o apoio dos países ricos à luta contra a SIDA no hemisfério Sul como um exemplo do que deve ser feito para que o planeta se torne um sítio mais habitável. O retrato que traçou era dramático - milhões de infectados e pouquíssimos deles com acesso a tratamento.
Hoje, acaba de ser anunciado que a Fundação Bill Clinton alcançou um acordo com empresas farmacêuticas para o fornecimento de medicamentos a um terço do preço. Moçambique será um dos beneficiados (Clinton lembrou em Lisboa que outro país lusófono, o Brasil, já tem uma política deste género).
Entre os países que apoiam financeiramente a iniciativa estão o Canadá e a Irlanda.
Quando visitou Portugal, em 2000, o então Presidente dos EUA propusera um plano de luta contra a malária.
É bom saber que, num mundo dominado pelo cinismo e pelos interesses económicos, ainda há quem rume contra a maré. Falando, mas principalmente fazendo.

Leiam o Miguel, leiam o Miguel, leiam o Miguel, leiam...

Vou fazer o que nunca fiz e o que nunca se deve fazer. A partir de hoje, nomeio o Miguel Sousa Tavares meu legal representante para as opiniões sobre a Casa Pia, o PS e assuntos conexos.

Casa Pia - duas posições

O leitor Luís Bonifácio - com quem já troquei umas ideias sobre leite e Joni Mitchell - escreveu-me um longo texto acerca do processo Casa Pia, no qual, em grande medida, manifesta discordância com algumas das coisas que aqui escrevi nas últimas semanas. Penso, por isso, que seria supérfluo responder a cada um dos aspectos que aborda. Eis os excertos mais significativos:
“O caso casa pia está a ser politizado”, acusa a direcção do PS. Quem estiver atento às notícias só pode chegar a uma conclusão, “O caso casa pia está a ser politizado pela própria direcção do PS”. Desde Fevereiro que nenhum outro partido utilizou a prisão de Paulo Pedroso como arma de arremesso.
(...)
“A divulgação das escutas é destinada a fazer cair Ferro Rodrigues”. Sinceramente os factos demonstram que esta divulgação não é necessária para fazer cair Ferro.
(...)
Quem quer ser primeiro-ministro ou ministro de negócios estrangeiros (Ana Gomes) têm de saber uma postura de estado e nunca perder o sangue frio (ou pelo menos ser o ultimo a perdê-lo). O Caso casa pia tem provocado na direcção do PS (Candidatos a ministros portanto) uma histeria total de que eu não me lembro. Imagine-se o que teria sido do país se no verão quente de 75 a classe governante tivesse entrado em histeria? Quantas pessoas teriam ido à fonte luminosa? Teria havido 25 de Novembro se o grupo dos 9 fosse constituído por histéricos? E se Costa Gomes fosse tão histérico como Ana Gomes? Esta direcção do PS pura e simplesmente NÃO SERVE, a bem da nação venham outros, pois este governo que temos já fede mas com esta direcção do PS é melhor manter lá o Barroso e o Portas pelo menos até às próximas eleições.
(...)
Rematando considero que a sua frase “Bloco central de interesses” toca no cerne da questão. Na minha modesta opinião, o caso Casa Pia poderá ser, caso produza a condenação de gente importante, a passagem do Rubicão para a sociedade portuguesa, no que toca à destruição de “certos interesses instalados” nela desde à muitas décadas, será como o dia de abertura da caça aos patos, os caçadores todos (Magistrados e policia) de caçadeira em punho para apanhar os patos. E quem são os patos? Advogados e outros que ganham rios de dinheiro e só declaram o salário mínimo; Uma lavandaria disfarçada de banco; Um politico que mete as mãos no bolo; Uns negócios escuros de uns grandes lusitanos orientais. Quem não vai ser o magistrado desejoso apanhar um destes “patos” e dizer aos colegas “o meu é maior que o teu!”
(...)
Eu acho que estas fugas (Pró defesa e contra defesa) vêm de um uma única fonte que tem como objectivo final fazer com que o caso termine como terminaram muitos outros: prescrições, condenação das testemunhas, processo “mal instruídos” e assim manter alegremente o status-quo vigente. Por isso esta direcção transformou, involuntariamente, o PS no defensor destes “interesses”, eles estão todos aninhados nas costas do Ferro, sendo este mais outro motivo para o PS mudar de direcção
(...)
O Adufe, entretanto, levanta uma questão fundamental: terá Ferro Rodrigues condições para conduzir normalmente o PS, fazendo oposição normal, enquanto este processo não terminar (e temos de admitir que isso vai levar anos...)?
Acho que não. Mas também me parece que nenhuma direcção do PS, seja quem for o líder, terá grandes condições para o fazer. Esse é o verdadeiro problema. Pessoalmente - embora admita que esta seja uma posição excessivamente romântica, que posso assumir porque não tenho qualquer interesse directo neste caso - ficaria triste se visse uma direcção partidária cair devido a comportamentos que considero inadmissíveis da parte do aparelho do Estado. Isso sim, seria uma derrota para a democracia.

jeudi 23 octobre 2003

O Carrilho

Escrevi de raspão sobre o Carrilho e agora sinto-me na obrigação de dizer mais qualquer coisa, dada a mini-polémica que aí anda, principalmente entre o Barnabé, o Adufe, o Gin Tónico e o Bloguitica.
Começo por dizer que não me interessa muito escrever sobre a vida interna dos partidos. Já aqui disse que os partidos, o seu funcionamento interno, são do menos democrático que existe nas nossas democracias.
Cada vez estou mais convencido de que as lideranças partidárias resultam de uma conjugação do acaso com jogos muito rasteiros, em que a discussão de ideias tem um peso secundaríssimo.
Penso, também, que há nos partidos uma espécie de casta - coincidente, em parte, com aquilo a que se chama de barões -, a qual assume um papel que me desagrada profundamente. São aquelas pessoas que nunca se comprometem com trabalho político efectivo e que passam a vida a mandar bocas. Lembro-me, por exemplo, do que Angelo Correia dizia sobre Durão Barroso a seis meses das últimas eleições.
O caso de Carrilho é mais complexo, mas também entra nessa classificação.
A Carta Aberta que publicou no DN poderia ter sido escrita por qualquer um de nós. Melhor, nos blogues e nos jornais escreveu-se aquilo e muito mais.
Mas Carrilho não antecipou nada, diz agora aquilo que toda a gente diz. E também não o faz no local certo. Limitou-se a assistir, a conveniente distância, ao afundamento do barco. Agora vem dizer que o barco está a afundar-se, mas nem sequer avança com propostas alternativas.
Já no tempo de Guterres fez exactamente o mesmo: pôs-se de fora, em nada contribuindo para as soluções, mas apenas para os problemas. Cavalgou a onda de críticas a Guterres, numa altura em que TODA a gente criticava Guterres. Nunca apresentou uma alternativa.
A cena repete-se. Após esta carta, vai passar para a oposição, vai escrever todas as semanas contra o PS, a direita vai dizer que ele tem razão, vai apresentá-lo como um socialista lúcido e os socialistas vão continuar a olhar para ele ainda com mais desconfiança.
Isto não leva a nada.

A dos metros bajo tierra

A série «Six Feet Under», que em Portugal passou sob o nome «Seis palmos de terra», começou ontem a ser exibida em Espanha com o título «A dos metros bajo tierra». Vai passar na FoxTV, um canal codificado da Digital Plus.
Trata-se de uma das melhores e mais premiadas séries televisivas dos últimos anos - uma família que se esfrangalha (ou se regenera, conforme os pontos de vista...) perante nós, tendo como cenário uma firma de cangalheiros.
Engraçado é que a estreia valeu uma página de publicidade a cores no El Pais. Por cá, passou no Canal 2 e não deixou rasto. É (também) nestas pequenas coisas que se vê a nossa pequenez.

Citemos, então

Hoje estou citativo, que é outra forma de estar preguiçoso.
O Miguel Sousa Tavares esteve brilhante na cena (que não vi...) em que mandou calar a Guedes. Lá está mais um caso em que o incidental acabou por abafar o fundamental. E o fundamental é isto:
«Acho que infelizmente, e deve ser a quinta vez que o digo aqui, as deficiências da instrução são tamanhas que eu acho que o grosso dos implicados vai acabar de fora, com prejuízo de acabarem dentro alguns inocentes e que jamais alguém neste país vai ter a certeza de que se chegou à verdade.» Clap, clap, clap (isto sou eu a aplaudir sonoramente).
[Actualização: o Diário Económico de hoje reproduz o famoso diálogo Moura Guedes/Sousa Tavares, mas, no que à peixeirada diz respeito, o Jornal de Notícias é bem mais completo.]
Já o Barnabé diz o que tinha de ser dito sobre o Carrilho: «cobardia política ou exibicionismo fácil». Tendo em conta a megalomania da figura, acho que são as duas.

Relato da loucura contemporânea

Arnaldo Jabor escreveu esta semana sobre a loucura da nossa época. Vale a pena ler tudo, enquanto está acessível (basta registar, não é necessário pagar). Fica um excerto:

As paixões passaram a durar o tempo entre duas reportagens de “Caras”. O amor é um pretexto para a orgia de troca-trocas narcisistas. O casamento virou um arcaísmo careta. O sexo, uma competição de eficiência. Onde está a sutileza calma dos erotismos delicados? Onde, o refinamento poético do êxtase? Nada. No sexo, o desejo é virar máquina e atingir o desempenho perfeito, o orgasmo definitivo.
Até criticar o erro do mundo ficou ridículo. A arte ficou ridícula, inócua, pregando num deserto de instalações melancólicas que ninguém vê. O cinema virou um “titanic”, um videogame, com guetos de “independentes” queixosos. Os artistas não têm mais nem o consolo do pessimismo clarividente, do absurdismo iluminista de um Beckett ou Camus. Não há esperança nem na desesperança crítica. O absurdo ficou óbvio demais para ser condenado, superou o mais terrível pesadelo surrealista.

Homem prevenido?

Hugo Marçal foi libertado pelo juiz Teixeira porque apresentou quilos de documentos que lhe reconstituem o rasto em 104 fins-de-semana de 1999. Eu ontem estive em Évora e nem disso tenho prova.

Então e eu?

Estou cada vez mais preocupado. Dei a habitual volta matinal pelos blogues e quase todos têm nova publicidade no topo. E eu não. Se o mercado funcionar, serei obrigado a fechar. [Noto que, nos últimos dias, ando com tendência para a rima, rima fácil, é certo, mas, mesmo assim, rima. Será grave?]

Martins da Cruz, que é feito de si?

O Notas Verbais voltou. Se quiserem saber a resposta ao título desta nota...

Religiões em confronto

Ontem assisti, em Évora, a parte substancial de um debate inter-religioso sobre a paz. Estavam presentes representantes da igreja católica, do islão e do judaísmo. Alguns nomes sonantes, outros nem tanto.
O que mais me impressionou é a flagrante incapacidade para qualquer tipo de diálogo entre aquela gente.
Embora todos insistissem nas virtudes do diálogo e declarassem sonoramente que estavam interessados em estabelecer pontes com o parceiro do lado, a desconfiança era o sentimento dominante. Atrevo-me a dizer que, mais que a desconfiança, cada intervenção era marcada pelo desprezo face ao parceiro do lado. Um desprezo intelectual, feito de certezas estudadas, mas que, frequentemente, resvalava para um desprezo quase pessoal.
Ao esmiuçarem os textos sagrados, a história e as atitudes presentes de cada uma das religiões, os conferencistas deixaram muito claro que, do ponto de vista institucional, cada uma dessas religiões foi construída contra algo, contra outra religião. É uma história de diferenciação e não de comunhão.
A pairar sobre tudo isto, surgiu Eduardo Lourenço. Em plena forma.
Suavemente, explicou como a religião e a geoestratégia se têm interpenetrado tanto nas últimas décadas. Por exemplo, como a Europa descobriu que o «desencantamento» religioso que promoveu na segunda metade do século XX «não foi propriamente uma vitória». E como a (re)descoberta de que, aqui tão perto, a vitalidade do Islão obrigou a Europa a voltar-se de novo para a religiosidade. E como os EUA nunca passaram por esse «desencantamento» porque, no fundo, «são tão fundamentalistas como os que acusam de fundamentalismo». E de como isso acaba por ser uma «vantagem» para a América. E de como «a descrença não é uma vantagem prática» para os Europeus.

De 9 a 21, vão... vão... bom, é fazer as contas

O Liberdade de Expressão não prima pelo apego à realidade. A maior parte das vezes, mistura 5 mentiras, duas suposições e três ilações erradas, leva tudo ao shaker e apresenta-nos uma verdade irrefutável.
Desta vez, porém, abusou. Garante-nos que «entre o dia 9 de Maio e o dia 21 de Maio um suspeito e todos os seus amigos mais próximos tiveram acesso a informação em segredo de justiça.» Fala do Pedroso, entenda-se. Não sei onde foi encontrar tão ribombante informação, mas isso não interessa. O que verdadeiramente me preocupa é o LE chegar à conclusão de que, de 9 a 21 de Maio, vão 11 dias. Ora, pela minhas contas, vão 13, visto termos de contar com os dias 9 e 21. Na minha modesta opinião, este é um erro que prejudica claramente o raciocínio do texto. Maus a lógica, ainda vá lá. Agora a aritmética?
[Actualização: o LE tem toda a razão - 9 e 21 não foram dias completos. Pode-se lá tentar sabotar o sistema judicial em dias incompletos!?...]

mercredi 22 octobre 2003

A ONU e o muro (II)

O Bloguitica está acutilante. Agora, pergunta:
ISRAEL afirma publicamente que nao vai respeitar a resolucao aprovada pela Assembleia Geral das Nacoes Unidas que condena a construcao do muro e na blogosfera ninguem barafusta?
Pois é meu caro - os que não barafustam são exactamente os mesmo que, há dias, achavam que, com a nova resolução das Nações Unidas, Portugal já está perfeitamente à vontade para mandar a GNR para o Iraque. Ou, talvez mesmo, uns militares a sério.
A isto não se chama duplicidade de critérios. Não senhor...

Sampaio? Aplaudo

O Bloguitica registou que ninguém, além dele, elogiou a intervenção de Jorge Sampaio sobre o caso da pedofilia.
De facto, os poucos comentários que li eram críticos. Pelo tom, parece-me que seriam sempre críticos, independentemente do que Sampaio dissesse.
Para equilibrar as coisas, embora com 24 horas de atraso, aqui vai o meu aplauso:
- por ter afirmado que não interferiu no caso. É uma redundância, mas o nível de disparate a que já chegámos tem obrigado muito de nós a reafirmar evidências
- por ter apelado à serenidade. Pelas mesmíssimas razões do texto anterior
- por ter exigido que a divulgação das escutas não fique impune
- por ter encontrado a definição acertada para o circo mediático em que estamos mergulhados - novela judiciária
- por ter elencado, mais uma vez, os reais problemas que estão a ser esquecidos por causa deste processo
- por ter falado, assumindo assim as suas responsabilidades. Parece outra evidência, mas não é.

Casa Pia - o acordo

O Aviz e o Abrupto temem um «acordo de Bloco Central» acerca da Casa Pia. Eu receio bem que esse acordo exista há muito e que seja esse acordo que está a gerar o lamaçal em que nos encontramos.
Alguém usava, há anos, a expressão «Bloco Central de interesses». Nunca liguei muito, parecia-me uma chalaça.
Face ao que foi escrito nos últimos meses acerca da pedofilia, as suspeitas que se levantaram, os nomes que circularam (é claro que devemos ser cuidadosos quando falamos disto, porque há muita insinuação e coisas sem fundamento), sou levado a acreditar que não havia fumo sem fogo. Mas a verdade é que hoje, nove meses após o início do processo, o que há é muito pouco. Bem pode a dra. Catalina Pestana falar de «terramoto».
Por isso, temo bem que um «Bloco Central de interesses» tenha trabalhado na sombra, precisamente para se proteger.
Mas penso, também, que esse «Bloco Central de interesses» não passa pelas actuais direcções do PS e do PSD. Ou pelo menos não passa pelo coração dessas direcções.

Luzes na noite

Às 06:06, o Almocreve escreveu estes fabulosos Momentus Politikus. Abençoada noite que tanto iluminas.

A ONU e o muro

A ONU condenou o muro que Israel está a construir em território palestiniano.
Comentário cínico: eu sempre disse que a ONU estava infiltrada de terroristas.
Comentário sério: quem apoia a construção deste muro, por silêncio ou palavras, está a ter o mesmo comportamento de benevolência criminosa que há mais de meio século conduziu ao que sabemos em relação ao povo de Israel.

Notas dispersas

1. O procurador-geral da República vai fazer um inquérito para saber quem divulgou as escutas do processo Casa Pia. A conclusão, óbvia, chegará: foi a direcção do PS, como forma de mascarar a total incapacidade para fazerem oposição séria ao governo.

2. Esse inquérito será muito interessante, mas insisto num outro de que já falei:
Tendo em conta a forma, o momento e os excertos escolhidos das escutas divulgadas, o Procurador-Geral da República já abriu algum inquérito para averiguar se existe, ou não, uma acção concertada (não lhe chamemos, para já, associação criminosa...) para derrubar ilegitimamente (isto é, por actos não políticos) um dirigente partidário?

3. Mantive com o Planeta Reboque uma troca de correspondência que o Pedro, com a minha anuência, decidiu publicar.

4. António Lobo Xavier remete para o final do seu artigo de hoje no Público as questões que interessam:
Como se tudo isto ainda fosse pouco, surge agora a divulgação das escutas transcritas no processo do antigo dirigente socialista. Admito que o seu conteúdo é perturbador, porventura merecedor da interpretação de Pacheco Pereira. Mas, ao contrário de outros comentadores especialmente iluminados, não sei avaliar plenamente a sua relevância para a investigação.
O problema está em que, por um lado, aquela divulgação, em si mesma, constitui um atentado intolerável contra a privacidade das comunicações pessoais, que para mim sobreleva todo o interesse da análise política
. (sublinhado meu)

5. Numa ordem de interesse público, entre o comportamento do PS e comportamento do aparelho da justiça qual é mais importante? Penso que ninguém duvida da resposta.
Todos sabemos o que os militantes do PSD disseram nos seus comentários televisivos do fim-de-semana acerca do PS. Alguém se lembra do que disseram sobre as fugas de informação das escutas telefónicas? Alguém os viu preocupados com o funcionamento do sistema mediático que tanto os apoquenta noutras alturas?

6. Parece que o Miguel Sousa Tavares se atirou à Moça Guedes. Ver aqui, p. Ex.
O que eu perdi
com esta minha mania
de não ver a TVI.

Ou falo eu ou fala o senhor...

Na SIC Notícias, o João Almeida está a entrevistar o Manoel de Oliveira. Com aquele estilo sôfrego, a interromper o entrevistado logo à segunda palavra. Estão a ver, logo o Manoel de Oliveira...
Vai daí, às tantas, atira o cineasta: «Bom, ou falo eu ou fala o senhor...»
Engraçado foi ver depois o João Almeida a fazer o gesto de interromper, mas o som a morrer-lhe nos lábios. Divertido.

mardi 21 octobre 2003

É só inquietação...

Vou abrir-vos o coração. Atenção, sorvei (será que é assim que se escreve?) este momento, não é todos os dias que o faço. É que ando cheio de dúvidas.
Dúvida um - devo ou não seguir o conselho do senhor Presidente da República e exercer o meu direito cívico à serenidade. A verdade é que estou um pouco (pouco?) cansado de escrever sobre a Casa Pia, o PS, bla bla. Mas, de cada vez que leio jornais e passo pelos blogues do costume, não resisto a corrigir uma incorrecção aqui, uma incongruência ali... Além disso, sinto sempre que ficou algo por dizer. Enfim, um verdadeiro dilema. Por isso, apetece-me apanhar a boleia de Sampaio e calar-me. O que acham?
Dúvida dois - um dia vou ter de arrumar os links. Vou pondo lá os que leio, mas alguns deixo de ler e há sempre novos a aparecer. Não gostaria que aquela lista crescesse desmesuradamente, gostava que ela fosse um sincero conselho de leitura. Isto levanta-me outro poblema - cada vez mais, deparo-mo com blogues intelectualmente desonestos. Já disse que gosto da polémica e, por isso, leio tudo, mesmo, ou talvez principalmente, aquilo de que discordo. Mas há coisas para as quais estou a ficar intolerante - o disparate, a graça parva, a pura desonestidade. Ter ideias, discuti-las, é uma coisa. Aparvalhar, por falta da necessária massa cinzenta ou pura maldade, é outra. Por isso, brevemente vou começar a arrumar os links.
Dúvida três - Deus, afinal, existe ou não. Ah, ainda não podem responder. 'Tá bem.
[O título do texto é uma referência a José Mário Branco, um esquerdalho do piorio, mas um génio do caraças.]

Flash back? Flash forward...

Há um gajo que leio todos os dias. É o Anarca. Mas aquilo são pérolas a porcos. O gajo produz em tal quantidade que é impossível ler tudo. Por exemplo, escapou-me uma fantástica. Recuperei-a no Avatares. E se a TSF transmitisse as escutas em directo? Já viram o que a democracia ganhava em transparência? Em vez de mandarem as transcrições para as televisões e jornais, os senhores das escutas só tinham de emitir a coisa, via satélite ou simples RDIS, para a TSF.

Clinton

Hoje, assisti a uma prelecção de Bill Clinton em Lisboa.
Teve um lado divertido e um lado sério. Comecemos pelo sério, que depois percebem melhor o divertido.
A parte séria é que qualquer pessoa com um nível médio de QI perceberia com toda a facilidade que com Clinton no poder o mundo estaria hoje bem melhor. E não vale a pena virem-me com a treta de que os atentados do 11 de Setembro foram preparados durante os seus mandatos. É apenas uma teoria, como tantas outras.
A sua visão multipolar do mundo contrasta flagrantemente com a falcoaria ignorante e obcecada que se instalou em Washington. Os exemplos que deu são cristalinos - por exemplo, no Médio Oriente, é preciso impôr a noção de partilha e não a de dominação, como actualmente ocorre.
O entendimento que tem da complementaridade no eixo EUA/Europa é o único que permite um diálogo frutuoso, em contraponto a esta desconfiança que se instalou e da qual nada de positivo pode sair.
Enfim, o homem é um tratado.
Agora, vem a parte divertida. A assistência, maioritariamente composta por gente do poder político e económico, que nos últimos tempos tem sobrevivido ideologicamente à sombra das concepções bushistas, aplaudiu calorosamente. Será que ao menos percebem inglês?

Pedroso e Nobre Guedes

Escreve JPP:
A ACUSAÇÃO A JOÃO PEDROSO de ter ido para o Conselho Superior de Magistratura por causa do processo que envolvia o seu irmão é insustentável. É uma insinuação do mesmo tipo da que foi feita contra Nobre Guedes e a Ministra da Justiça, a propósito do processo Moderna. A verdade é que a primeira insinuação veio apenas de Marcelo Rebelo de Sousa e a segunda foi repetida à saciedade por muitos que agora se indignam, como se fosse a coisa mais natural do mundo, e ninguém pensou em processa-los.
Há uma ligeira diferença: a insinuação sobre Nobre Guedes era em abstracto; a relativa a Pedroso é concreta.

Pessimista

Meus amigos, algo de verdadeiramente grave está para acontecer - há vários dias que este e outros blogues são encimados pela habitual mensagem publicitária, mas com a frase: «This blank space brought to you by Google».

A SIC e o PS

Após ter derrubado dois ministros da Nação, a SIC está claramente apostada em fazer cair o líder do maior partido da oposição. Basta ver a insistência com que repetem as peças das escutas, o tom agressivo dos textos, o desconforto com que os pivôs lidam com os comentadores menos sanguinários.
Nestas alturas, costuma-se dizer que tem tudo a ver com Balsemão. A SIC e o Expresso tornam-se mais ou menos agressivos para o(s) poder(es) conforme evoluem os negócios do patrão.
A tese, embora plausível, carece de confirmação. Até porque ninguém fez (mas é possível fazer...) uma investigação séria sobre o assunto.
Para já, prefiro pensar que tudo está, ainda, na esfera meramente jornalística. Que os jornalistas da SIC precisam de afirmar a sua independência perante o mundo, mas principalmente perante eles próprios.
Estou, é claro, a falar apenas da SIC.

Pode-se escutar uma SMS?

Há uns dias, expressei a minha indignação pelo facto de o meu telemóvel se recusar a escrever automaticamente a palavra «merda». Devo informar que já resolvi o assunto. Pergunto-me agora: as mensagens SMS também estão sob escuta?
Nota: vejo pelas fotografias que o meu telemóvel é igual ao do Ferro. A pergunta que faço pode ser, por isso, importante para outras pessoas.

Macau em Paris

Folheio o Libération com novo grafismo enquanto ouço o novo/futuro disco dos Rádio Macau, Acordar.
Impressiona-me como se consegue envelhecer, mudando sem trair.

O que está em causa

Escrevi hoje um texto que hesitei em publicar. Guardeio-no no Blogger, mas, como já me aconteceu noutras alturas, não faço a mínima ideia de onde foi parar.
Basicamente, por outras palavras e seguindo outros caminhos, dizia o mesmo que a Clara Ferreira Alves.
Retiro dois ou três excertos:
Aconteça o que acontecer, a guerra entre o partido, o procurador e os acusadores e investigadores da pedofilia é total e é até à morte. Ou caem os socialistas, ou cai toda a máquina que investigou e desenhou este caso. Porque, como se viu após a libertação de Pedroso, o «outro lado» não hesita no golpe baixo e na má língua. A divulgação destas escutas telefónicas destinadas a destruir Ferro Rodrigues e a envolver outra vez o nome de Jorge Sampaio são um sinal de que a democracia portuguesa está profundamente doente.
(...)
Não é apenas por boas razões que a máquina judicial e judiciária anda a violar o segredo de justiça, é também porque quer transformar Pedroso e Ferro, e os outros, em canalhas e culpados. Esta gente sabe que se perder este processo, perde a carreira e perde a dignidade. Sabe que se perder esta guerra perde o emprego e a credibilidade, e perde a vida. Por isso, utiliza todos os truques e subterfúgios e vai «vomitando» esta papa para os jornais, que a publica, evidentemente. A única reacção que podemos ter é a do asco.
(...)
A cabala não deve existir mas existe gente que não tem escrúpulos nem vergonha. E essa gente tem de ser denunciada. E têm de existir mecanismos de controle desta gente, mecanismos democráticos. Uma «cabala» pode ser constituída por um intriguista bem colocado. Além do PS, estão a destruir a democracia.
(...)
No texto que perdi e que me arrependo de não ter publicado, escrevia ainda algo assim:
Nada me assusta mais que um sistema de justiça que faz linchamentos públicos através e com a cumplicidade dos media.
E escrevia ainda algo assim:
Nós, comuns mortais que nada temos empenhado no PS, podemo-nos estar nas tintas para o destino de Ferro. Mas devemos estar cientes de que a saúde da nossa democracia está mais dependente do destino de Ferro do que parece.
Fica o registo de uma intenção e do essencial dessa intenção.

lundi 20 octobre 2003

Vária

Entre a vertigem das coisas importantes e o conforto das pequenas coisas, vamos deixando para um depois excessivo interpelações diversas que surgem um pouco por todo o lado.
O Miniscente glosou uma neura que (auto)diagnostiquei algures. Só lhe digo que a dinamarquesa já se foi, o besugo ficou e a neura não voltou. A última parte é mentira, mas era só para rimar com(o) a canção.
O Sérgio, da Aba de Heisenberg, escreveu sobre a reciclagem de embalagens e fez uma referência aos textos que aqui escrevi sobre o leite UHT. Este blogue tem mantido uma troca de ideias muito interessante sobre reciclagem com o Adufe.
Mais uma - alguém anda a pôr num blogue os textos da revista Kapa. Uma iniciativa de elogiar.

Método eleitoral

Há iniciativas que merecem ser acarinhadas, até porque vão ao arrepio da voragem destes tempos.
O Blog-sem-nome decidiu pôr à discussão uma mudança do sistema eleitoral. Entrei no debate, basicamente para expressar o meu pessimismo acerca das condições objectivas para a concretização de algo nessa área. O Blog-sem-nome deicidiu agora cumprir a promessa de criar um blogue dedicado a recolher todos os contributos. Merece um segundo aplauso. Chama-se Método Eleitoral.

Duas perguntas

1. Nas escutas agora divulgadas a Ferro Rodrigues e Companhia são referidos com insistência contactos com o Lopes, o Marcelo e o Sarmento. Já algum jornal ou televisão, enquanto espera que lhe caiam nas mãos as escutas ao PR, pediu as escutas feitas a esses três sociais-democratas?
2. Tendo em conta a forma, o momento e os excertos escolhidos das escutas divulgadas, o Procurador-Geral da República já abriu algum inquérito para averiguar se existe, ou não, uma acção concertada (não lhe chamemos, para já, associação criminosa...) para derrubar ilegitimamente (isto é, por actos não políticos) um dirigente partidário?

Não assino, já disse!

Bem pode o Mata-mouros tentar subornar-me com prémios, que eu não assino a petição. Já disse, não assino!

Ferro - agora a sério

Nada é por acaso. Há meses que nada é por acaso. Por isso, Ferro Rodrigues não vai demitir-se.

Palavra de honra...

Eu bem avisei o Ferro:
«Ó pá, quando disseres que te estás 'cagando para o segredo de justiça', acrescenta um sonoro 'palavra de honra'. Vais ver que assim te safas...»

jpp or pacheco and sic - estas cinco palavrinhas são apenas para dar menos trabalho à pessoa que, todas as segundas-feiras, de há um mês para cá, as procura no Google.

Crazy packs, ideia muita louca

Eu, que não fumo, ando preocupado com os fumadores. Segui no Aviz o debate sobre o Português Suave. Acho a coisa um verdadeiro atentado cultural - e não, não estou a ser irónico.
Agora, uma boa notícia.
Vi, há dias, numa televisão, uma ideia maluca dos franceses - uma espécie de capa para envolver os maços de cigarros e, dessa forma, esconder aquelas frases idiotas que enchem as embalagens (pior - parece que vêm aí umas imagens de extremo mau gosto).
Chamam-se Crazy Packs, são baratos e têm a vantagem de cada um escolher a imagem que, a cada momento, mais lhe agradar - do Che ao Bush, do Marilyn aos Beatles.
Aqui há um video com mais informação. Os franceses, mesmo quando inventam coisas com nomes ingleses, continuam a ser uma malta com uma certa piada.

O que dizem lá fora

Do «sonho ao pesadelo», escreve o El País sobre Portugal. O link é pago - a Lusa dá uma ajuda.
Como já referi há dias, trata-se apenas de mais um passo para uma ampla internacionalização do nosso país. De qualquer forma, convém estar atento se não haverá uns anunciozitos perdidos na revista de domingo do jornal madrilenno.

dimanche 19 octobre 2003

Geleia com amor

Estivemos a beber chá e a comer tostas com geleia de goiaba. Dizia na embalagem que foi «feita com amor» no Brasil, obviamente.
Se tivesse sida feita na União Europeia, teria sido feita com E-345, E-480b, E-156. Sem corantes, nem conservantes. Ou, simplesmente «feita».
E teria, envolvendo 90 por cento do pote, uma faixa assim: «O Governo alerta que o consumo desta geleia pode ter efeitos altamente positivos no consumidor e em todos os que o rodeiam».

Fumo na TV (adenda)

«A cultura não interessa, somos merda», disse o Samora, criticando os orçamentos do Ministério da Cultura.
Chame-se já a polícia... Um homem que diz isto na TV não pode ser actor!

Fumo na TV

O Fernando Lopes e o Rogério Samora estão a ser entrevistados pela Bárbara Guimarães na SIC Notícias. Nestes tempos de intolerência, ambos fumam e têm em cima da mesa uma garrafa de uísque. O Fernando é focado amiúde com o copo nos lábios, o fumo sobe perante as câmaras. Ela está grávida, mesmo que a mesa não o deixe ver.
Eu, que não fumo, deveria criticar tudo isto. Mas só me apetece elogiar.

Revoltillo

Es la forma de revuelto más simple que existe.
Se calienta da salsa de tomate previamente obtenida (tomates sin semilla, rama de apio, un ajo, un pedacito de guindilla, sal, aceite y media cucharadita de azúcar).
Se baten los huevos (dos por persona), sin llegar al batido de una tortilla pero lo suficiente como para que la clara se integre con la yema.
Se remueve la salsa de tomate y sin para se va anadiendo el huevo, a fuego muy bajo, hasta conseguir una consistencia ya no liquida, pero tampoco atortillada. Es preferible que peque por jugoso.
Salar definitivamente mientras se está removiendo.


A esta hora, como compreendem, talvez só já haja paciência para uns ovos mexidos. Não menosprezemos, porém, os encantos dos pratos aparentemente simples.
A receita sai directamente do livro Las Recetas de Carvalho, em que Manuel Vásquez Montalbán reúne os petiscos e pratos de grande confecção que espalhou pelos seus muitos livros. Este Revoltillo é do Historias de Amor. Quem quiser mais, a edição é da Planeta.

Pop suiça, perdão, francesa

Há quase duas horas que o MCM está em fundo. O som, digo. A visão dispersa-se, preguiçosa, pelo amontoado de papel dos jornais de fim-de-semana, pelo computador, a MCM só pelo canto do olho...
Serve esta nota para registar a extraordinária previsibilidade da pop francesa. Nestas duas horas, já escutei uma data de gente de que nunca ouvira falar, intercalada com o Daho, a Paradis, os Negrésses, até o Gainsbourg mais óbvio.
A batida esmera-se em não surpreender. A melopeia, a pose, tentam seduzir, num jogo entre o Eurofestival e o erotismo mais desinteressante.
Só o gosto de ouvir cantar em francês justifica esta minha estranha atracção. Porque a pop francesa, generalizando, pois claro, é verdadeiramente suiça - não adianta nem atrasa.

samedi 18 octobre 2003

Pepe vive

Disse-me um amigo que o Pepe Carvalho está hoje à noite, algures em Lisboa, a cozinhar, presumo que para os amigos.
Estivéssemos nós no Inverno, iria lá ter com uma caixa de livros que andei a guardar para esta ocasião. Aquecer-nos-iam a alma, mas principalmente o corpo.

Mônica e Docontra

Esta é só para meter inveja ao Adufe.
A Marta tem um desenho com um beijo da Mônica. E o Daniel tem um desenho do Docontra.
Foi hoje à tarde no Festival de BD da Amadora. Estava lá o Maurício.

Adéu Pepe

Manuel Vásquez Montálban morreu no aeroporto de Banguecoque.
«Os lábios de Archit tentaram dizer qualquer coisa antes de se entregarem à rigidez da morte. Carvalho ficou convencido de que tinha tentado repetir o nome dos pássaros, o reconhecimento dos pássaros e, com eles, da grande pátria dos céus.» Último parágrafo de Os Pássaros de Banguecoque, 1983.

Hugo out

Hugo Marçal foi libertado. Rotina. O ALVino é que os topa.

Dúvida muito inquietante

Será que o governo vai utilizar nos media portugueses o mesmo critério que usou com a Time para a colocação de publicidade ao Euro'2004?

E continuo já aqui

Antes que alguém me pergunte sobre as novas escutas, aí vai:
1. Se um dia, algum familiar meu for injustamente acusado de um crime de tal gravidade, podem ter a certeza de que até o Papa eu chateio. Qual PGR, qual Sampaio, qual Lopes, qual carapuça. Se me reconheço este direito, porque não haveria de o reconhecer a um partido político.
2. Se isso acontecer, é bem provável que no meu telemóvel não encontrem a expressão «estou-me cagando para o segredo de justiça». É mais provável que lá seja ouvido: «Eu fodo esses filhos da puta, cabrões...»
3. Se isso acontecer, eu sei que, enquanto eu fizer esses telefonemas, uns provedores beatos, uns advogados ex-alunos, uns psicólogos enigmáticos e uns políticos impolutos estarão, ao telefone e ao vivo, a influenciar o processo mais do que eu alguma vez poderia fazer.
4. E eu sei que se tudo isto se souber só pode vir de um dos lados - a acusação - e que o objectivo é só um: dar cabo de todo o processo.
A mando de quem?, perguntam vocês. Não sei.

Declaração

No Glória Fácil, asl pede aos amigos que não lhe falem da Casa Pia. O PG, no Bloguítica, teve um momento de nojo, mas voltou à superfície. Já há dias, o daniel, no Barnabé, temia a ressaca. Há pouco, foi o Rui, do Adufe, a informar-nos que vai atravessar um deserto só dele.
O processo Casa Pia, mas principalmente o cruzamento deste processo com o mundo da política, está a atirar-nos para um fosso. Em calma mas contínua espiral.
É certo que, pelo meio de tudo isto, há uns tantos cheios de certezas. Porque acreditam em tudo o que querem acreditar, porque talvez deles seja o reino dos céus.
Para esses tantos, os culpados há muito que estão encontrados. Para alguns deles, aliás, o que era preciso era inventar o crime, pois os culpados já eles tinham identificado.
Dizem-me que pode ser o regime democrático que está em causa. Dizem-me que é a justiça que está podre. Apontam-me a política - é ali, naquele reino, que se movem os maus. Eu vejo isso, mas vejo, talvez mais de perto - deformação profissional - que também os media são uma merda.
E agora? Desistimos?
Chegados tão fundo, e olhando ainda mais para baixo, a tentação é grande. A atracção é irresistível.
Mas ainda não. Seguramente, não. Nunca, não.
Desculpem lá o mau jeito, mas tenho de continuar. Há-de haver algures uma racionalidade para tudo isto. É o coração que o diz, mais que a razão.
Por um imperativo de lucidez, por uma imperativo de sobrevivência, de civilização, continuo.

Há heroína na direita

Li os blogues, li o Independente. A direita tem heroína - chama-se Ana Gomes. Tudo pesado, é certo, são os lugares-comuns de sempre. As banalidades que se dizem quando alguém incomoda para lá dos limites estabelecidos. Pavlovianamente. Fizeram o mesmo com Freitas do Amaral. Hão-de fazer o mesmo quando e se Manuel Monteiro sair da insignificância a que se remeteu. Isto, é claro, os que sobreviverem à overdose da nova heroína. Embora me digam que, à direita, é mais cocaína.

Dúvida

Será que a Le Point tem publicidade ao Euro'2004? Se não tem, não seria de ter?

Mata mouros, mata

O Mata-mouros, um dos blogues portugueses mais interessantes, tem momentos destes. De puro humor.

vendredi 17 octobre 2003

Peixe frito

O Adufe vai fritar robalinhos. Desta, ainda não haverá cheirinho a Jaquinzinhos. Sublinho, desta.

Guida remata à figura do Eduardinho

O Cibertúlia chama, e bem, a atenção para esta peça de alto gabarito de Margarida Rebelo Pinto.
Pessoalmente, a parte de que gostei mais foi esta: Eduardo Prado Coelho, conhecido crítico literário do Público que nunca percebeu bem o que é que ando cá a fazer e desconfia dos meus livros embora simpatize com a minha figura.
Se me é permitido um comentário, dos livros dela nunca desconfiei, não senhor, e, quanto ao resto, simpatizo com figuras um tudo nada mais cheiinhas.
Também gosto muito desta parte: Eu respiro fundo, conto até três e interrogo-me: porque é que a cabeça das pessoas neste país nunca mais se abre para o mundo? Porque é que não se pode dizer bem de nada? Porque é que as pessoas com sucesso são sempre alvo de crítica e de ácida troça?
Com este tipo de raciocínio, não percebo porque é que a rapariga ainda não tem um blogue.

Merda

Deparou-se-me hoje um contratempo que penso ser de toda a utilidade comunicar a todos vós.
O meu telemóvel Nokia não aceita a palavra MERDA no editor automático de mensagens.
Logo à noite, vou ver o manual de instruções - lembro-me de lá ter visto que é possível acrescentar palavras ao Dicionário. Tenho mais duas ou três que, presumo, ser-me-ão úteis nos próximos tempos.

Justiça, outro exemplo

Um acórdão do Tribunal da Relação mandou que Paulo Pedroso continuasse preso. Esse acórdão foi emitido um dia após um acórdão do Tribunal da Relação ter mandado libertar Paulo Pedroso. (!!!!!)
Espantoso: o mesmo Tribunal da Relação recusara-se a apreciar um recurso da defesa, por alegadamente estar prejudicado por uma decisão entretanto tomada pelo juiz de instrução. Pela mesma ordem de ideias, e embora tratando-se de um acórdão sobre matéria diversa, não deveria ter sido cancelada a divulgação do segundo acórdão, visto o seu alcance ter sido claramente prejudicado?
Espantoso. Tudo espantoso.
Mas há mais: o tal segundo acórdão da Relação mantém a prisão de Pedroso porque:
1. Os maiores indícios dos crimes imputados ao recorrente, entretanto recolhidos, justificavam que o meritíssimo juiz Rui Teixeira reafirmasse a manutenção, agora reforçada, dos pressupostos que haviam determinado a opção pela medida coactiva mais gravosa. Espantoso: isto foi exactamente o que o outro acórdão deitou por terra...
2. Vergonhosa e inadmissível coacção psicológica exercida sobre (...) o juiz, quer por maus profissionais de informação, quer por figuras públicas de relevo, as quais devendo ter maior contenção (...) deixaram-se invadir por apaixonados sentimentos sectários. Espantoso: um arguido é prejudicado ou beneficiado consoante o que escrevem os jornais e os «sentimentos apaixonados» de «figuras públicas de relevo»...
3. Afinal, as vítimas não são agora as crianças violadas? Espantoso. Afinal, tudo se explica - esta secção da Relação é integrada por Catalina Pestana, Pedro Namora e o famoso Bibi, que, como se sabe, é o mais inocente desta história toda.
É claro que há alguém interessado em dar uma imagem pouco digna da justiça. E não são os políticos. E não são os arguidos. E não são os media. Qualquer comentário suplementar entraria, como se compreende, na área do ilícito penal!

No Outono, por entre folhas que caem...

Acontece no campo, mas também acontece na cidade. E é lindo!

jeudi 16 octobre 2003

A Justiça - uma reportagem

A SIC Notícias acaba de exibir a mais impressionante reportagem que já vi sobre o estado da Justiça em Portugal. E em apenas 1 minuto.
À porta do TIC onde estão a ser ouvidos os arguidos do processo Casa Pia, dois caixotes do lixo abarratovam de papés. Nada mais nada menos que convocatórias, fotocópias de BI, extractos de processos, requerimentos... Tudo ali à vista, perfeitamente identificável, os nomes, as moradas, os telefones... Um retrato da competência, profissionalismo e seriedade com que a Justiça portuguesa está a funcionar.
Questionado um funcionário superior, lá foram recolhidos os caixotes.
Espero que a SIC volte lá amanhã à noite.
[Actualização: o Anarca, atchim, sempre de olho, atchim, também fala deste assunto, atchim, e remete para uma notícia do Público. Obri....Aaaaatchim... gado.]

Concor co o Liber Expres sobr o Fer

O Liberd de Expres pegou num text meu e cort aos bocad. cort, cort. Enfi, nad qu me espant vind de quem vem. Afin, el só queri dize mal do Fer Rodr, como de costu.
Pront par el nã se cans mai, aqu vai: concord com el - o Fer é munta feio, bué da fei. Nã se fal mai nis.

A chuva, ainda

Em dia com ameaças de chuva, não saia de casa sem ler isto. Serviço público sem taxa.

Às voltas, até ficarmos malucos II

O Liberdade de Expressão e a Grande Loja do Queijo Limiano (este através da e-mail) discordam do que escrevi sobre Ferro Rodrigues e a revista Le Point.
Aí vão alguns esclarecimentos, numerados, como o LE gosta:
1. O que o Le Point traz sobre Ferro é claramente baseado na manchete do Expresso: «Ferro consta do processo».
2. Essa manchete mereceu o seguinte comentário do PGR (24 Maio), citado pela Lusa: Numa nota hoje enviada à Agência Lusa a propósito destas notícias publicadas no "Expresso", a PGR assegura que "parte substancial dos factos referidos como incluídos no processo não constam efectivamente nele", mas não precisa quais.
3. Ferro Rodrigues nunca foi recebido pelo PGR no âmbito deste caso, mas apenas uma delegação parlamentar liderada por António Costa.
4. Ferro Rodrigues depôs, no DIAP, perante o juiz que instrui o processo, em 4 de Junho. Vários jornais disseram que ele ia pedir esclarecimentos. Não corresponde à realidade - o Conselho de Estado teve de dar autorização para ele depôr. Quem depõe não pede esclarecimentos, dá.
5. Eis o que Ferro disse numa conferência de imprensa, nesse dia: «Entrei com confiança que o Estado de direito e a Justiça vão continuar a procurar um esclarecimento total» do caso da Casa Pia, adiantou o secretário-geral do PS, acrescentando que saiu «com esta confiança reforçada». E mais: No final da conferência de imprensa, que decorreu às 18:00 no Parlamento, o secretário-geral deixou claro que continua a ser testemunha do processo. «Obviamente que continuo a ser testemunha», disse. (Notícia da Lusa).
6. Conclusão: Ferro foi ouvido sobre as suspeitas que constavam do processo, que sairam no Expresso e que o Le Point reproduziu. Mas não foi indiciado.
7. O LE, pela 98.ª vez este ano, prefere tirar a única conclusão que lhe interessa: «Ferro mentiu». Quanto aos limianos, gostava que me indicassem onde posso colher as declarações em que Ana Gomes considera credíveis as notícias do Le Point sobre os dois ministros pedófilos.
8. Insisto: não vale a pena andarmos às voltas, discutir o que já nem discussão tem. Ficamos todos (ainda mais) malucos.

Chuva e utopia

O Viva Espanha (curioso nome...), respondendo ao meu apelo sobre a melhor maneira de evitar os pingos de chuva, lembra que correr, embora evite a dita chuva, cansa mais.
O mundo perfeito, meus amigos, continua por inventar. É por isso que toda a utopia ainda faz sentido, embora todos os dias nos tentem demonstrar o contrário.

O sonho de qualquer jornalista

No Glória Fácil, transcreve-se o seguinte parágrafo do Grande Arquitecto:
«Abri clarabóias no telhado, fazendo entrar a luz. Os tectos amansardados foram forrados a aglomerado de cortiça na cor natural. Pintei todas as madeiras a esmalte vermelho escuro e forrei o chão com alcatifa de sisal.»
Eis o sonho de qualquer jornalista - ter um director que abra clarabóias no telhado.

Às voltas, até ficarmos malucos

Há coisas que uma pessoa, por mais voltas que dê, não percebe.
Por exemplo, porque é que o Fumaças escreve isto e o Grande Loja do Queijo Limiano subscreve.

E porque é que a Drª Ana Gomes não fala deste parágrafo do célebre artigo do Le Point, publicado já nos idos de Junho (nº 1605 - 20 de Junho)?
... Dernière personnalité sur le gril, Eduardo Ferro Rodrigues, le patron du PS portugais, dont certains témoins affirment qu'il assistait parfois, sans y participer, aux parties pédophiles.
Para mim, tem exactamente o mesmo valor de qualquer outro excerto do mesmo artigo!


Mas, então, não foi por isto que o Ferro Rodrigues foi ouvido, umas largas horas, pelo procurador que tem o processo? Isto da Casa Pia já é uma história de malucos, se andarmos às voltas, em círculo, ficamos tão malucos como eles.

Pedroso no Público

Notável a entrevista de Paulo Pedroso ao Público de quarta-feira.
Pelas respostas e pelas perguntas.

Pronto, desisto

Já a minha mãezinha me dizia para não brincar com coisas sérias...
Sou alertado pelo Bloguítica de que o Governo português, afinal, vai manter a publicidade na Time.
Repito, não se deve brincar com estas coisas. A realidade ultrapassa sempre qualquer tentativa de humor.

Tlim, Tlim, Tlim

O Conselho Executivo da AOL Time Warner, proprietária da revista Time, cadeia CNN e mais uma data de coisas importantes no mundo dos media, está reunido de emergência para analisar a decisão do Governo português de suspender a campanha do Euro'2004 naquele famoso news magazine.
«A notícia apanhou-nos completamente de surpresa», reconheceu o presidente honorário do conglomerado, Ted Turner.
A generalidade dos outros membros do Conselho escusaram-se a comentários, mas observadores bem colocados admitem a hipótese de a empresa ser obrigada a encerrar os escritórios no Togo, ou mesmo a suspender a publicação da edição em esquimó clássico, de forma a fazer frente ao rombo nos lucros que significou a decisão de Lisboa.
Nos meios económicos de Atlanta admite-se que uma das medidas retaliatórias poderá passar pela codificação do sinal da CNN para Portugal. A empresa estará em contactos com a TV Cabo, analisando a hipótese de a emissão da CNN poder chegar a Portugal com o som do Canal 18.
No entanto, os elementos mais moderados do Conselho Executivo preparavam-se para propôr uma tentativa de conciliação. Lisboa voltaria a fazer publicidade na Time e, em troca, Jane Fonda reataria relações com Ted Turner e viajaria de seguida para Portugal onde inauguraria um estádio a indicar pelo ministro José Luís Arnaut.
[Aos não iniciados, informa-se que o título deste texto é a tradução literal das campaínhas dos velhos telexes, a avisar que acabava de chegar uma notícia de última hora.]

Cruzado ele próprio

E, é claro, há quem não se fique pelas palavras. Quem parta mundo fora «atrás dos cruzados». Cruzado, também ele.
Já não fomos a tempo de lhe dizer: cuidado, «bizde daima Batı merkezlidir. Yani tangolar, rumbalar, mambolar falan». Até porque o tal imperador, que perdeu um combate há seiscentos anos, dorme um sono justo. Estes são tempos de outro(s) império(s).

Veki funkcias kiel diskutlisto?

À mesma hora a que o Eduardo Prado Coelho vê o Big Brother, em compactos, no Canal 43 e sabe-se lá se pela parabólica, o Francisco estuda línguas.
Sugiro-lhe esta: «Veki funkcias kiel diskutlisto kaj emas helpi la disvastigon de la internacia lingvo, instigi la novulojn al la praktikado de Esperanto kaj informi.»
Disseram-me um dia que isto seria perceptível por toda a gente. Enfim...

Havde vi glæden af et besøg?

Tenho aqui uma dinamarquesa em linha que quer saber se «en første lørdag og søndag i oktober havde vi glæden af et besøg fra vores søstermenighed i Tyskland. Vi lærte meget om at have en fælles vision, samt om at bygge tillid og vise respekt»?
Respondi-lhe que «det synes jeg simpelthen virker meget, meget mærkeligt. Jeg er lige ved at sige, at det ville være pligtforsømmelse», mas não sei se ficou convencida.
Com as dinamarquesas tenho sempre estes problemas. O discurso flui, mas sinto que a corrente não passa.

mercredi 15 octobre 2003

Neurablogue ou blogoneura?

Uma volta pelos blogues do costume (cliquem ao calhas na coluna do lado...) e uma constatação: a neura é geral. Resta-me uma dúvida - será mais correcto chamar-lhe neurablogue ou blogoneura?

No comments

O jornalista Daniel Schneidermann trocou de máfia... perdão, trocou de patrão. Foi despedido pelo Le Monde e agora escreve no Libération... o jornal que mais barulho fez à volta do caso Le Monde. E, agora, quando Schneidermann resolver atacar os patrões do Libé? Ou será que o contrato tem alguma cláusula de excepção?

Por entre os pingos - uma sugestão

O João, d'a-metamorfose, sugere um um teste anti-pingo. Mais científico não poderia haver. Vou andar com uma cópia no bolso.

Por entre os pingos

Hoje, deparei-me com um dilema clássico. Quando chove, é preferível andar calmamente ou correr?
Sei que o problema foi estudado cientificamente há uns anos. Alguém se lembra da resposta?

Chega de brincadeira!!!

Parem lá com isso!!!
O patrão já andava desconfiado que eu usava os meios da empresa e o sagrado tempo dele para opinar contra a corrente. Agora, vai descobrir que a malta dos blogues ainda se diverte à brava com isto. Qualquer dia... qualquer dia... bloqueia-me o Blogger. E depois queixo-me a quem? Ao Bagão, ao Proença. Ou simplesmente ao Carvalho?

mardi 14 octobre 2003

Ainda o Le Point

Pronto, desliguem as luzes, eu confesso tudo.
Alguém passou boa parte da tarde (pelo menos três vezes... ) a teclar no Google site:terrasdonunca.blogspot.com Le Point. Parece que há alguém muito interessado em saber a minha opinião sobre o assunto. E não é seguramente a Le Point para me oferecer uma assinatura. Então aí vai, numerado para se perceber melhor.
1. Não gosto da revista. Não a leio habitualmente. Tendo em conta o seu perfil político, deve ser muito lida nos gabinetes da coligação no poder.
2. O que escreveu sobre o caso da pedofilia é tão ou mais leviano quanto aquilo que muitos jornais e revistas portugueses escrevem acerca o que se passa lá fora. Como é «lá fora», pensa-se que se pode escrever tudo, sem o perigo da sanção. Escrevemos sobre as máfias russas como se toda a gente fosse mafiosa em Moscovo. Falamos de um político qualquer europeu e chamamos-lhe corrupto com toda a facilidade.
3. O facto de a revista ter acusado dois ministros do Governo português - um de pedofilia, outro de frequência de meios de prostituição - deveria ter levado o Governo português a reagir. A notícia afecta a imagem de Portugal. E era muito simples: uma cartinha para a revista a exigir publicação do desmentido e uma comunicação à Procuradoria-geral da República «para os devidos efeitos». O PGR diria, então, o que veio dizer agora. Não percebo onde está a dificuldade de perceber estas coisas.

Ainda a Time

Amanhã já não se fala mais nisso.
Mas o Cerco do Porto tem razão - o que deu a esta gente (rádios, mas, principalmente, televisões) para voltarem a Bragança, contarem as mesmas histórias que já tinham contado há meses, só porque uma revista estrangeira fez capa com as meninas brasileiras? É claro que a Time tem muito impacto (embora não me tenha dado ao trabalho de ver se as edições extra Europa Ocidental trazem alguma coisa de Bragança), mas não deixa de ser sinal de algum provincianismo este regresso ao local do crime.
Poderia dar-se o caso de a Time ter trazido qualquer coisa de novo sobre o assunto. Mas nem isso. De resto, a Time é uma revista de jornalismo mastigado, sem novidades.
Amanhã já não se fala mais nisso.
Última hora: embalado pela força da comunicação social, o Governo pondera suspender a campanha do Euro'2004 na Time. Começo a ficar rendido - os media têm, de facto, muito poder.

Agradecimentos

Ao Adufe por nos ter informado, minuto a minuto, do duelo entre a Ana Gomes e a Helena Matos. A Ana Gomes ganhou, é claro, apesar de todos os comentadores televisivos e blogueiros encartados dizerem o contrário.
Ao Retorta por me tentar levar por bons caminhos. Dá-me música, ainda por cima Young Marble Giants, mas já deve ter percebido que carrego uma maldição - entre a política e a jornalismo, sou um Diabo sem escolha.
Ao T-Zero. Diz o Ralo que eu não me ralo com ele. Olá se ralo, meu caro Ralo.
À Catarina, do 100 nada, por me ter transportado no saco de links para o Weblog.
Ao Alfacinha por ter tirado da prateleira o Marc Almond a cantar Brel. Vale a pena escutar.
E, porque não?, a todos os que tornaram isto possível. Sniff.

Jardim, os jornalistas...

Os partidos são organizações peculiares. Gosto de pensar neles como uma personalidade esquizofrénica.
Dou um exemplo. O PS. Há uma reunião do partido e decide-se que é preciso atacar o Presidente da República. É claro que não pode ser o líder, porque é amigo e é líder. Encontra-se, então, alguém tipo Manuel Alegre ou Medeiros Ferreira, que não terão qualquer problema em se atirarem ao PR pela esquerda. Mas imaginemos que o objectivo é atacar o Bloco de Esquerda por causa de questões relativas ao aborto? Helena Roseta, por exemplo. E para atacar a direita por causa do mesmo tema? Talvez Maria de Belém. Ou até Maria do Rosário Carneiro.
No PSD é a mesma coisa.
Por exemplo, vejam esta frase: Ou deixamos a comunicação social ter um poder corporativo crescente que nos liquide, ou então temos o poder e a coragem de liquidar o poder corporativo da comunicação social.
A frase foi proferida por Alberto João Jardim, nas jornadas parlamentares do PSD. Agora, imaginem que se pretendia fazer passar a mensagem junto de pessoas, digamos, mais cultas, que lêem livros, fazem blogues... Vá lá, imaginem quem seria a pessoa escolhida para passar a mensagem...

Internacionalização

Acabo de ter acesso, presumo que em primeira mão, a uma lista das iniciativas que as autoridades portugueses tencionam patrocinar para promover a imagem de Portugal no estrangeiro.
As duas primeiras, dispenso-me de as referir. Quem ainda não ouvir falar dos artigos sobre Portugal que sairam no Le Point e na Time?
A terceira acção de promoção decorre até ao final de Outubro e envolve a Newsweek, que trará, numa das suas edições europeias, um artigo com o título: Portugal revoluciona métodos científicos para a contagem de mortos por motivos sazonais.
Em Novembro, sairá na Economist um texto intitulado Universidades portuguesas testam com sucesso sistema europeu de acesso ao Ensino Superior com base em critérios extra-curriculares.
No último mês do ano, será a vez de a Science & Vie dedicar um dossier a Portugal, com o título genérico Os domingos stéreo, no qual será incluído um texto com o título: Televisão portuguesa inova tecnicamente ao emitir, em simultâneo, a mesma opinião veículada por duas pessoas diferentes.
A mão amiga que me passou o documento garante que a programação para 2004 está dependente das negociações entre os operadores privados encarregues das acções no terreno e a dra. Ferreira Leite.

Importam-se de especificar?

Brasileiras, prostitutas, Bragança, Time... não sei... acho isso tudo muito vago. Na próxima edição, importam-se de juntar os números de telefone, as tabelas de preços e o Número de Contribuinte dos clientes pra malta investigar?

Outros lugares

O Migalhas mandou-me um mail a partilhar dicas sobre blogues apaixonados. Teve a delicadeza de nem me alertar para um quase plágio de um título de post. Foi lá que reencontrei um blogue com uma ideia engraçada. O Thelma&Louise.
Às vezes de gosto de pensar... de passear... que há quem vá escrevendo por caminhos tão diferentes dos meus.

Intervalo para duelo

Hoje, ao fim da tarde, não há blogue pra ninguém. Vou estar em Gaia a assistir ao duelo entre a Ana Gomes e a Helena Matos. Não preciso dizer por quem torço, pois não?

Shiu

Nem mais meu caro, nem mais!

Faz-me um blogue

Estou a precisar de limpar os olhos. Ou será a alma?
Eu sei, a culpa é minha. Toda minha. Minha grande culpa. Entusiasmo-me com a Ana Gomes, irrito-me com o George W. e depois não há Brel que me sossegue. Que raio de ideia, sossego nunca rimaria com Brel... Adiante.
Do que eu gostava agora mesmo era de um blogue de amor. Com declarações arrebatadas, dilacerantes, dilaceradas. Talvez com um pouquinho de sexo, só na medida certa. Mas amor, isso sim.
Preferia sem imagens, sem música. Só a palavra. Que, em vez de me tentar convencer, me tentasse vencer. Que não desse luta, que lutasse comigo corpo a corpo. Um blogue como um oásis na cidade, um porto de abrigo.
Faz-me esse blogue!

Divergência?

Ó Francisco, porque é que o teu Sitemeter tem o código «divergência»?

Coisas da epiderme

Então é assim: o mundo é a preto e também a branco. E há os bons e os maus. Vamos lá a repetir: o mundo é a preto e branco, há os bons e os maus... Isso, vá lá: agora repita para dentro. Interiorize. Já está? Pronto: agora você pode chamar-se FNV e pode começar a escrever no Mar Salgado (link na coluna da direita, da direita, não se engane...).
Isso, vá repetindo: os bons e os maus, la la, la la...
Ah, já me esquecia. Os jornalistas são sempre maus. Nunca discuta ideias com eles. Ataque. Simplesmente ataque. Jornalista? Pum, pum. Não tenha medo, não está sozinho...

Retórica e reflexão

O Retórica e Persuasão é um daqueles blogues que cultiva a serenidade perante a turbulência. Um bom exemplo disso é o que escreve aqui e aqui sobre Pacheco Pereira.

Casa (pausa) Pia

Muito sinceramente, não me apetece escrever mais sobre a Casa Pia, o Pedroso, o PS, a justiça...
Acho que já disse tudo. Vou tentar fazer uma pausa.
Antes, porém, recomendo este texto do Avatares.

lundi 13 octobre 2003

Casa Pia - a politização

O que escrevi sobre Ana Gomes foi mais um ponto de chegada do que de partida. Porque o fundamental do que penso sobre o assunto já o havia escrito. Mesmo assim, aí vão mais umas achegas:
1. A politização. Como a memória é fraca, já ninguém se lembra que, nas primeiras semanas após a detenção de Pedroso, o nome de Ferro fez manchetes. Mesmo um caso patético do ISCTE fez manchetes. Ferro foi criticado pela maneira exagerada como reagiu. Tivesse ele reagido de forma mais tíbia e já hoje não seria líder do PS. Talvez estivesse preso.
2. A politização II. O PS, pelo que atrás ficou dito, ficou completamente refém deste caso. Durante meses, os jornalistas não perguntaram outra coisa a Ferro. Durante meses, o PS ficou limitado na sua capacidade política.
3. A politização III. Pedroso garante que está inocente. Os seus camaradas de partido acreditam e agem em conformidade - com a indignação de quem se sente injustamente acusado. Não vejo outra forma de reagir.
4. A politização parte IV. À semelhança da totalidade dos detidos, Pedroso ainda nem sequer tem acusação. Qur isto dizer que não se pode defender. Quer perante a justiça, quer perante a opinião pública diariamente intoxicada com noticiário libertado pela acusação.
5. A politização parte V. O juiz Rui Teixeira, quando recebe um recurso de Pedroso, antecipa a audição para confirmação da prisão preventiva, inviabilizando o recurso. O Tribunal da Relação lava daí as mãos e recusa o recurso. Nada disto é normal. Tratando-se de um processo complexo e mediático, é ainda mais anormal.
6. A politização parte VI. Quando o caso começa a chegar aos tribunais superiores, toda a investigação começa a ser posta em causa. De uma forma brutal.
7. A politização parte VII. Insisto num ponto fulcral que já abordei anteriormente: tratando-se de um caso desta gravidade, será normal que o resto da rede continue à solta? Ou não haverá mais rede e os anos (as décadas) de exploração de crianças da Casa Pia destinavam-se a servir a meia dúzia de senhores que estão detidos?
8. A politização parte VIII. Anda meio mundo irado com a politização que o PS estará a fazer deste caso. Mas pensará esse meio mundo que os juízes, os investigadores, vivem numa redoma, em ambiente esterilizado, e são imunes às pressões? Acha esse meio mundo que os juízes, os investigadores, são sensíveis às pressões do PS só porque fala alto e não às outras feitas em surdina, sopradas de locais inconfessáveis? Mas será que esse meio mundo é composto por virgens, acabadinhas de nascer?
9. A politização parte IX. Acabo de ver uma senhora chamado Dulce Rocha a levantar meias insinuações sobre os juízes da Relação? Isso não é pressão? Vi ontem as declarações patéticas de um psicólogo sobre os sentimentos das crianças da Casa Pia - mas essas crianças não têm direito ao recato? Se há ameaças de morte, que as comuniquem às autoridades. Expôr isso tudo na televisão não é uma forma de pressão sobre a justiça? Com isto ninguém se indigna? E nem falo do procurador...
10. A politização parte X. Uma certa malta indignou-se com a publicação de umas fotos do Paulo Portas, durante o congresso do PP, com a mão estendida, tipo nazi. Que era manipulação. Essa mesma malta acha normal que se montem imagens, na melhor tradição estalinista, misturando a libertação de Pedroso com a saída dos presos de Caxias? Ou com a libertação de Mandela?

Ana Gomes e os perguntadores

Hoje vi duas entrevistas a Ana Gomes na televisão. À hora de almoço na RTP, à hora de jantar na SIC.
Em ambas, os jornalistas perguntaram tudo o que havia a perguntar, com uma rispidez (ia a dizer agressividade...) pouco habitual na televisão (confesso, não tenho visto a TVI nas últimas décadas...).
Se não põem côbro a este esquerdismo das nossas televisões, não sei onde iremos parar.
Nota: o PGR esclareceu que aquilo do Le Point era tão vago, tão vago, que não tinha ponta por onde se lhe pegar. De facto: «ministros do governo português»... Mas qual governo? Há governo em Portugal?

Tomates de ouro

Este é um blogue de serviço público. Por isso, aí vai o alerta.
O El País (sem link, é a pagar) noticia hoje na primeira página: «Tomates a precio de oro». A coisa é simples: a generalidade dos produtos hortícolas está a registar aumentos de preço da ordem dos 25 a 50 por cento ao ano. A culpa, é claro, é da seca, mas, também, do crescimento descontrolado das margens de lucro por parte das grandes superfícies - houve uma concentração de grupos económicos, logo a concorrência ficou menos aguerrida, logo os preços aumentaram.
Para que conste: além dos tomates, estão a ser afectadas as «lechugas», algumas frutas e as «judias verdes» (sem relação directa com o conflito israelo-palestiniano).
Só estou a falar disto porque, como se sabe, quase tudo o que comemos vem de Espanha. Por isso...

Umas flores, porque não?

Eu gostava de enviar uma flores, malgré plus périssables, à Ana, para nesse gesto agradecer alguns textos simpáticos (não nomeio, simplesmente para não ser injusto por omissão) que circularam por alguns blogues durante o fim-de-semana.
Porque as flores, acho eu, se esgotam no gesto. Não perfumam o elenco de pequenas e grandes corrupções, acho eu.
Mas não devo. Sinceramente, não me apetece dar uma ponta, pontinha que seja, de razão a quem vê em tudo corporativismo e tráfico de influências.
Movem-me as palavras, as ideias. Em liberdade. Sem qualquer restrição de partido, sindicato, tribo ou lugar a defender.

Eu aplaudo Ana Gomes

É claro que aplaudo tudo o que disse Ana Gomes no fim-de-semana acerca do processo da Casa Pia. Quem leu o que já escrevi sobre o assunto deve achar até um pouco redundante esta minha declaração. Mas, neste tempo em que alguns preferem esconder-se por detrás de pensamentos pré-fabricados e na graça inconsequente, convém que se fale claro.
Que disse Ana Gomes ao DN?
«Falo no que o advogado de Paulo Pedroso falou: urdidura e maquinação. E temo que o objectivo seja, não atacar o PS, mas a justiça. E salvar os criminosos, da pedofilia ou outros.»
«Um caso como este , que se estende por décadas, não poderia ter chegado onde chegou sem cumplicidades fortíssimas, não só na instituição Casa Pia, mas noutras, incluindo do Estado. Espero que a justiça não se fique pela punição dos clientes, mas que vá aos orquestradores da rede.»
Considero estas afirmações de uma sensatez rara na política portuguesa. E acho espantoso que alguém as enquadre no mero jogo político. Ana Gomes sabe que, quando fala no aparelho do Estado, está a meter ao barulho o PS e que, se o caso for levado seriamente até ao fim, o PS será ainda mais chamuscado do que já está a ser. Mas, insisto, tem de haver seriedade e, pelo que temos visto até agora, isso é o que tem faltado mais. Presumo que por uma mistura explosiva de jogos de sombra e de incompetências várias.
Mas Ana Gomes disse mais no fim-de-semana. Exigiu que a justiça investigue se é, ou não, verdade que existem pedófilos no Governo, conforme noticiou o Le Point.
Outra das coisas espantosas que o caso da pedofilia trouxe ao espaço mediático é a convicção de algumas pessoas de que as denúncias anónimas são para deitar fora. Era o que faltava. O Ministério Público tem a obrigação, repito, a obrigação de averiguar todas as acusações feitas na praça pública, por maioria de razão se elas envolverem personalidades do aparelho do Estado.
É por isso que sempre achei que o Muito Mentiroso deveria ser investigado, até pela verosimilhança de algumas das acusações que lá constavam.
As denúncias anónimas sempre foram um dos pontos de partida fundamentais para qualquer investigação no campo da justiça ou do jornalismo. Uma coisa é publicar denúncias ou acusações anónimas. Outra, bem diferente, é investigar.

dimanche 12 octobre 2003

Sonhos roubados

«Truques para namorar com uma rapariga de 13 anos». Foi com esta frase teclada no Sapo que alguém visitou o TdN hoje à tarde. A estupidez dos motores de pesquisa tem destas coisas - misturam-se umas palavras, retira-se o contexto e voilá! Bom, não são apenas os motores de pesquisa a fazerem isto...
Do que eu realmente queria falar era da beleza daquela frase. Releiam: alguém quer namorar uma rapariga de 13 anos. Ninguém falou em «comer» uma «gaja» de 13 anos. Mas, nestes tempos agrestes, desconfiados, até aquele gesto belo, terno (qual de nós não quis namorar aos 13 anos?) ganha contornos de uma certa incomodidade.
Estamos a ficar reféns de todas as maldades do mundo.

Mota Amaral e os vândalos

Mota Amaral, presidente da Assembleia da República, mostrou-se muito «chocado» com o vandalismo que acompanhou a recepção a Paulo Pedroso no parlamento. Isto foi no Expresso, porque no JN de ontem parece que já se afirma «compreensivo».
A avaliar pela fotografia que acompanha a notícia do Expresso, Mota Amaral tem poucas razões para estar chocado. Acontece apenas que as mesas da Assembleia da República têm pés de barro. Como quase tudo naquela casa.

Bloguices

Há coisas que não têm importância nenhuma.
Por exemplo, o Barnabé alertou para que havia uma coincidência estranha entre uma pequena nota que publiquei e um cartaz electrónico do PCP. Como calculam, o assunto só me poderia divertir.
Voltei a sorrir quando este fim-de-semana a revista do Expresso escreveu que o cartaz estava on-line duas horas após a demissão de Martins da Cruz, ou seja, quatro ou cinco horas depois da minha nota. Acontece que no dia em que o Barnabé alertou para a coincidência - o dia a seguir à demissão do ministro - bastava clicar com o botão direito do rato sobre a imagem para perceber que ela tinha sido criada nesse mesmo dia. Mas o que é mesmo divertido é que, se forem lá hoje, essa informação está inacessível. Ele há coisas...
Nada disto tem importância, porque se trata de uma daquelas frases, tipo anedota, de paternidade sempre incógnita.
Nada disto tem importância, insisto, até porque o TdN tem bastante mais audiência que a revista do Expresso e o site do PCP juntos.
Por exemplo, sabiam que o TdN está a ser lido diariamente na Samôa Americana, em Taiwan, Ilhas Maurícias, República Dominicana, Islândia, etc, etc?
Esta globalização do TdN acontece desde que uma especial deferência do Notas Verbais enviou para aqui alguns dos seus fiéis leitores. O Notas Verbais, diga-se, é o fenómeno do momento. Não apenas pela muita e boa informação em primeira mão, que por lá circula, mas, principalmente, pela leitura, enquadramento, explicação, contextualização dos acontecimentos da nossa diplomacia. Leitura obrigatória.

Enquanto chove que não chove

O Outono abre o apetite a leituras, a revisitações, a encontros, reencontros. Aproveitem o fim-de-semana.
Por exemplo, ouvindo Tigerlily, de Natalie Merchant, a voz e musa dos extintos 10000 Maniacs. O disco é de 1995, andou desaparecido das lojas uns tempos, reapareceu caro e agora, espanto, está em saldo na FNAC a pouco mais de 7 euros. Escusam de correr, que há montes. Além do mais, a Natalie apela à calma. Contemplemos.
Em alternativa (?), recomendo o número de aniversário (70th) da Esquire americana. A edição em si é um espanto, pelo rewind que faz sobre estas sete décadas. Mas o que vale mesmo a pena é o brinde - uma separata com aquela que os editores consideraram a «greatest story ever told», pela própria Esquire, entenda-se, e que é, nada mais, que «Frank Sinatra Has a Cold». Uma reportagem sobre o 50.º aniversário da «voz»... só que Frank estava constipado, quer dizer, andava de muito mau humor por aqueles dias. Uma pérola de jornalismo. A revista vende-se em locais selectos por 4,5 euros.
Bom fim-de-semana. Por 12 euros.

Normalidade

O sábado amanheceu com nevoeiro e um odor a podre no ar.
Depois veio a chuva e limpou tudo.

vendredi 10 octobre 2003

Pois, pois

Daqui a umas horas, a blogosfera nacional vai estar de rastos, rendida à clarividência de JPP. Ele acaba de escrever um daqueles textos marcantes. Um texto (vários textos...) que tantos gostariam de ter escrito. Um texto que, nas entrelinhas e mesmo nas linhas, se escreve tanto por aí. É claro - sem aquele punch, sem aquela luz que cega.
JPP arrasa os media portugueses. Todos. Ou melhor, arrasa os jornalistas portugueses. Todos. Porque, enquanto moraliza, JPP também generaliza. Não nomeia ninguém. Não toca em caso algum. Eu até poderia concordar ou discordar. Se soubesse do que está a falar. De quem está a falar. Assim...
Genericamente, eu poderia dizer que há políticos que não gostam de perder. Nem a feijões. Não gostam que as suas ideias não vinguem. Não gostam que o mundo lhes resista. Nem quando penduram o casaco de político no bengaleiro e ficam com a camisa de comentador. Mas, é claro, se eu falasse assim, genericamente, vocês não saberiam de quem estava a falar.
Por alto, poderia falar dos políticos que moralizam quando falam de outros políticos. Mas abominam os jornalistas que moralizam. Dos políticos que têm o monopólio da moral. Mas, se eu dissesse isto, vocês não iriam saber de quem falo.
Gostaria, ainda, de falar de políticos com passado, que já andaram em campanha, que já andaram pelo Parlamento, que beberam da água que hoje censuram. Que deram a beber a água que hoje dizem odiar. Que usaram o prime-time e criticam quem usa o prime-time. Que usaram os bastidores e interditaram os corredores. Mas, se eu falasse desses políticos, vocês não saberiam de quem estaria a falar. Não valeria a pena.
Do que eu gostaria mesmo de falar era dos políticos que usam todos, mas mesmo todos, os recursos do sistema mediático e depois caem em cima do sistema mediático. Porque promove a intriga, a mediocridade, o populismo. Mas, assim, sem nomes, vocês iam lá saber de quem eu estava a falar.
Ah... Reparo agora - JPP, afinal, concretiza. Fala da SIC. Porque será?

Um caso de manipulação

Acabo de deparar com um excelente exemplo do que alguma blofosfera portuguesa gosta (falemos claro - alguns blogues de direita, liberais, conservadores... o que quiserem). A mesma blogosfera que acusa os media de mentirem, omitirem, terem agendas secretas, fazerem conluios com o Bloco de Esquerda, and so on, and so on...
A Economist escreve sobre o relatório Kay (armas de destruição maciça no Iraque) e diz, claramente, em título: Both critics and opponents feel vindicated by the Kay report.
A revista começa por mostrar a forma como o relatório dá razão aos críticos da intervenção no Iraque. Depois escreve: On the other hand e avança com os argumentos favoráveis a Bush. Um exemplo de equilíbrio.
Ora o Valete Frates, que passa a vida a acusar meio mundo de manipulação mediática, cita, todo lampeiro, a parte final, apenas a parte final, aquela que lhe interessa, que se ajusta às suas teses.
Estamos conversados.

Pedroso (três respostas)

O Liberdade de Expressão acha que o juiz Teixeira pode continuar na Lourinhã porque só está autorizado a tomar decisões urgentes no processo da Casa Pia.
E não acham isto estranho? É que no processo Casa Pia tudo é urgente. É preciso não esquecer que alguns arguidos estão em prisão preventiva porque o juiz temia que continuassem a violar crianças ou destruíssem provas. Mas, então, e os outros nomes de que se fala (diz-se que são 80...) podem continuar cá fora a fazer tudo isso?
O Jaquinzinhos acha que o juiz só terá errado se o Pedroso for inocente. Errado, meu caro. O juiz já errou, reiteradamente. Quem o diz não sou eu, é o Tribunal Constitucional e a Relação.
O Comprometido Espectador nota «animosidade» e «hostilidade» da minha parte. Pretendia, apenas, ser veemente. Se resvalei, penitencio-me. E, juro, nada tem a ver com citações ou não citações - estou-me nas tintas para quem linka ou deixa de linkar. Tenho na minha coluna, aqui ao lado, gente que me ignora e que eu leio todo os dias... No problem. Acho é alguma graça aos blogues que se regozijam por concordarem todos uns com os outros. Enfim, quem tem tido a paciência de me espreitar de vez em quando, já sabe que me dá gozo o contrário
Na mesma linha, encanito-me com frases pedantes do género «não acreditem nos media nacionais, leiam o Sullivan». Mas, reconheço, cada qual é livre de escolher a sua verdade.
Quanto ao fundo da questão, o processo Casa Pia, dispenso-me de repetir o que tenho escrito neste local. Aqui, ou aqui, por exemplo.
Só lamento o Brel. Fica para outra oportunidade. Como o Espectador já deve ter percebido, não sou de rancores. Discuto tudo com toda a gente. Sou um chato, em suma.

Traços de memória

Lembram-se das remodelações atabalhoadas de Guterres?
Lembram-se dos ministros de Guterres que, mal saíam do Governo, desatavam a dizer mal do primeiro-ministro?
Lembram-se?

É só nevoeiro?

Após um típico dia de Primavera, Lisboa acordou envolta em nevoeiro.
Que mais estará para acontecer?

Diálogo sem assunto

- Jotinha, amor, que vão ser das tuas manhãs sem Brel?
- Ferré, coisa fofa, Ferré...
- O quê? Avec Le Temps tout s'en va...? 'Tás a ficar velho.
- 'Tava a brincar.

Eles viram, eles viram...

Estamos lá perto. Ainda não há testemunho directo, mas os pais do André Belo viram o Brel ao vivo. É certo que já em 68/69, no D. Quixote.
Vá lá, se fizermos mais um esforço, chegamos lá. Quem viu o Brel a cantar, cantar só, antes de 67 (quando abandonou os palcos)?

Pedroso - desculpem a insistência

Não fiquemos pela rama, pelas últimas horas.
O processo Casa Pia tem nove meses. Desde o início que se falava de uma rede. Ainda ontem a provedora Catalina dizia, com aquele ar pio que a caracteriza, que é preciso não esquecer que as crianças foram «continuadamente abusadas».
Até agora, a rede limita-se a uma dúzia de arguidos. Parece-me pouco para uma «rede» que explorava centenas de crianças.
Apesar de a provedora falar que vem aí um terramoto e de os jornalistas «muito bem informados» sobre a matéria, como a Felícia Cabrita, terem anunciado repetidamente dezenas de detenções, até agora nada. Lembram-se? Eram futebolistas, artistas, deputados deste partido, antigos deputados do outro partido. Até agora, nada. Há meses que não há uma detenção. O juiz Teixeira, em vez de estar a instruir o processo, aparece todos os dias nos tribunais de Mafra e arredores em julgamentos de lana caprina.
Estranho, tudo muito estranho.
Falemos então de Pedroso.
Foi preso com grande aparato, com o juiz Teixeira a subir e descer no elevador do Parlamento com uma câmara da SIC à ilharga. Toda a gente achou normal.
Depois, puseram o nome do Ferro Rodrigues nas primeiras páginas dos jornais. Depois, houve aquela história da fotocopiadora do ISCTE. Patético. O denunciante foi ao Ministério Público. Centenas de pessoas já foram ao Ministério Público, mas nós só soubemos deste. Curioso.
Depois, vem a cena macaca das escutas. Uma mulher que passa por homem, uma conversa banal entre o Ferro e o Costa que é atirada para o processo como grande conspiração.
Agora, vem o Constitucional dizer que se atropelam passos processuais e a Relação a elaborar um acórdão quase cómico com base nas «provas» e «testemunhos» que o juiz tão carinhosamente tinha coleccionado.
Agora, digam-me: não é isto uma palhaçada?
Eu não gosto da palavra cabala. Eu preferia não acreditar que tudo isto é dirigido politicamente. Mas os factos, meu Deus, os factos não me deixam.
E notem, para memória futura: os culpados, os abusadores, os malandros, estão a rir-se. Algures.
E o Jaquinzinhos acha que tudo se resume a erros de um juiz. A continuar assim, daqui a uma semanas vai ficar toda a noite à espera que o Pai Natal desça pela chaminé.
Era preferível fazer como o Comprometido Espectador, que só lê blogues com os quais concorda (não vá o Diabo tecê-las...), que não acredita nos textos do Público sobre o acórdão e que ainda tem coragem para escrever: «E tudo se complica ainda mais quando há outros arguidos no caso e quando das informações relativas a esses arguidos podem constar coisas complementares que ajudaram a indiciar Pedroso.» Não sei o que mais me comove: se o total desconhecimento de como funciona a justiça, se a fé cega com que dislata com tanta facilidade.
É claro, se a conversa não agradaa, podemos sempre falar das lateralidades - a recepção do Pedroso no Parlamento, as declarações do Lacão, o aproveitamento político da justiça... Pois!

jeudi 9 octobre 2003

Linhas cruzadas [Brel]

A Ana suspira por um «blogless love», a quem, suponho, gostaria de levar bonbons, talvez umas compotas.
O Pedro abre-nos o mail e dá-nos a ouvir Brel na voz de Renaud.
O Mário lembra Pagani, com Brel no poema.
O ag lança um repto que subscrevo: não há por aí quem tenha visto Brel ao vivo?
O Filipe nota que faltou «La Chanson des Vieux Amants». Olha que não... vai ver a 9 de Julho (como se calcula, uma canção destas só deve ser recordada, a dois, em momentos especiais...)
O ALvino acha, e bem, que o «gaijo» deve ter morrido feliz.
A Filipa pediu-me para eu falar de «Amsterdam», mas o tempo não dá para tudo.
O Ivan publica o texto de «Le prochain amour» e uma foto completamente breliana.
O Nuno P. escolhe o «Ne Me Quitte Pas» e publica uma foto à galã. Ah, Grand Jacques...
Muito sinceramente - estou feliz por se ter falado tanto de Brel por estas bandas.
Para já, encerro com a justaposição do nome da exposição que o recorda (até Janeiro) em Bruxelas com o título do disco que acaba de sair:
Le Droit de Rêver... Infiniment.

Bombeiros pedintes

Os Bombeiros do Beato e Olivais estavam a fazer um peditório num cruzamento de Entrecampos.
Em clara concorrência com os romenos do cruzamento seguinte.
Não me parece normal que haja tantos romenos a pedir nos cruzamentos de Lisboa. Mas, enfim, somos mais ricos que eles.
Também não me parece normal que haja bombeiros a pedir nas esquinas. Mas percebo: não somos tão ricos quanto pensamos.
[O tema parece-me um bocadinho fora da agenda mediática. Falaremos no próximo Verão.]

Mulheres

Elogios à escolha de Teresa Gouveia para ministra?
Como diria Maria Elisa, só dizem isso por ela ser mulher...

Pedroso IV

Algumas questões levantadas pelo Liberdade de Expressão e Mata-mouros.
1. O LE perfilha uma tese interessante - Pedroso foi libertado apenas porque o tribunal da relação acha que não há perigo para a perturbação do inquérito. Ora, esse tinha sido o principal (pelos vistos, o único...) argumento válido para a sua detenção. Parece que nem o juiz Teixeira nem a Relação encontram indícios relacionados com a matéria de facto suficientes para o manter detido. Parece-me claro como água. [O LE escolheu criteriosamente a fonte de informação que se adaptava à sua teoria, ignorando todas as outras. Mas isso não é novidade. Nem é exclusivo do LE.]
2. O antes e depois do Tribunal Constitucional - parece que a decisão da Relação nada tem a ver com o acórdão do TC. Não sejamos ingénuos. Não tivesse o TC dito o que disse e acham que algum juiz se incomodaria em olhar para o caso?
3. O circo no Parlamento - não sejamos ingénuos, insisto. Ou alguém acha que a detenção de Pedroso nada tinha a ver com política? Parece-me, por isso, perfeitamente natural o que aconteceu. O circo, além do mais, era inevitável - as televisões fá-lo-iam de qualquer forma. E, já agora, uma pergunta - se não tivesse havido o que houve, as críticas não se dirigiriam para outra coisa qualquer? Para a frieza da recepção, por exemplo.
Insisto no que já disse - todas as reacções quanto a este caso são maioritariamente emocionais, mesmo quando fingem o contrário. Ou principalmente quando fingem o contrário. O PS, como todos nós, tem direito à emoção. A política também é emoção.

[Brel] Sugestões

Nove dias de Brel. Ficou tudo por dizer. Por isso, aqui vão uma sugestões.
Quanto a livros, a colecção 10/18, da Robert Laffont, tem as duas bíblias: a biografia de Olivier Todd (Une Vie) e a recolha completa de poemas (Tout Brel). São livros de bolso, baratos.
Há ainda J'Attends La Nuit, em que Paul-Robert Thomas (ed. Le Cherche Midi) recorda as conversas que teve com Brel na Polinésia, dois anos antes da morte. É de leitura indispensável para queira saber o que pensava/sentia Brel sobre o amor, a amizade, as canções...
Na Net, há o óbvio site oficial e há o dossier especial (muito recomendável, com agradecimentos ao Vítor pela sugestão) elaborado pelo jornal belga Le Soir.
E, é claro, há as reedições dos discos e parece que vai haver DVD.
Brel... Infiniment...

[Brel] La Cathédrale

Jacques Brel morreu faz hoje 25 anos. Nos últimos oito dias, recordámos aqui outras tantas canções escolhidas quase aleatoriamente, tantas são as indispensáveis. Os comentários que lhes iam juntos eram leituras muito pessoais, por vezes contextualizadas com dados históricos colhidos aqui e ali.
Encerramos com «La Cathédrale», gravada, em 1977, nas mesmas sessões que deram origem ao disco das nuvens na capa. Manteve-se inédita até à exposição que está a lembrar o artista em Bruxelas - «Brel, le droit de rêver» - e que encerra em Janeiro de 2004. Esta e outras quatro, igualmente inéditas, foram agora editadas na recolha «Infiniment» e na reedição da integral.
«La Cathédrale», uma metáfora das escolhas de Brel, entra directamente para o grupo das suas melhores canções.

Prenez une cathédrale
Et offrez-lui quelques mâts
Un beaupré, de vastes cales
Des haubans et halebas
Prenez une cathédrale
Haute en ciel et large au ventre
Une cathédrale à tendre
De clinfoc et de grand-voiles
Prenez une cathédrale
De Picardie ou de Flandre
Une cathédrale à vendre
Par des prêtres sans étoile
Cette cathédrale en pierre
Qui sera débondieurisée
Traînez-la à travers prés
Jusqu'où vient fleurir la mer
Hissez la toile en riant
Et filez sur l'Angleterre

L'Angleterre est douce à voir
Du haut d'une cathédrale
Même si le thé fait pleuvoir
Quelqu'ennui sur les escales
Les Cornouailles sont à prendre
Quand elles accouchent du jour
Et qu'on flotte entre le tendre
Entre le tendre et l'amour
Prenez une cathédrale
Et offrez-lui quelques mâts
Un beaupré, de vastes cales
Mais ne vous réveillez pas
Filez toutes voiles dehors
Et ho hisse les matelots
A chasser les cachalots
Qui vous mèneront aux açores
Puis Madère avec ses filles
Canarian et l'Océan
Qui vous poussera en riant
En riant jusqu'aux Antilles
Prenez une cathédrale
Hissez le petit pavois
Et faites chanter les voiles
Mais ne vous réveillez pas

Putain, les Antilles sont belles
Elles vous croquent sous la dent
On se coucherait bien sur elles
Mais repartez de l'avant
Car toutes cloches en branle-bas
Votre cathédrale se voile
Transpercera le canal
Le canal de Panama
Prenez une cathédrale
De Picardie ou d'Artois
Partez cueillir les étoiles
Mais ne vous réveillez pas

Et voici le Pacifique
Longue houle qui roule au vent
Et ronronne sa musique
Jusqu'aux îles droit devant
Et que l'on vous veuille absoudre
Si là-bas bien plus qu'ailleurs
Vous tendez de vous dissoudre
Entre les fleurs et les fleurs
Prenez une cathédrale
Hissez le petit pavois
Et faites chanter les voiles
Mais ne vous réveillez pas
Prenez une cathédrale
De Picardie ou d'Artois
Partez pêcher les étoiles
Mais ne vous réveillez pas
Cette cathédrale est en pierre
Traînez-la à travers bois
Jusqu'où vient fleurir la mer
Mais ne vous réveillez pas
Mais ne vous réveillez pas
.

Catherine

Catherine Deneuve no Estádio de Alvalade. A sério. Vem nos jornais desportivos de hoje.

mercredi 8 octobre 2003

Pedroso III

Por falar em critérios dúplices: acho fantásticas as críticas ao facto de Paulo Pedroso ter ido ao Parlamento após ter sido libertado.
Não me lembro de nenhuma crítica pelo facto de um juiz ter ido ao Parlamento dar-lhe ordem de prisão.

Pronto... confesso tudo

O Barnabé, talvez involuntariamente, acaba de revelar um dos segredos mais bem guardados da blogosfera portuguesa.
jmf era só para despistar. O meu verdadeiro nome literário é José Casanova. Mas podem chamar-me Dias... Vítor Dias.

Pedroso II

Na onda de emoções que explodiu após a saída de Paulo Pedroso da prisão, há um raciocínio da ordem do ajuste de contas que me parece equivocado.
Esse racíocinío está, por exemplo, aqui, quando se refere a dicotomia «justiça que funciona / justiça que não funciona» e é ampliado aqui, quando da justiça se passa para todo o sistema político.
Acontece que entre o antes e o depois, houve uma decisão do Tribunal Constitucional que faz toda a diferença. Uma decisão que pôs côbro a uma série de evidentes desmandos do sistema de justiça. Esses desmandos faziam com que muita gente começasse a descrer do sistema de justiça e a mostrar muitas reservas ao próprio funcionamento das nossas instituições democráticas.
Isto será assim tão difícil de entender?

Pedroso

As reacções - dos políticos, do PS, dos blogues, dos comentadores - à libertação de Paulo Pedroso só podem ser da ordem da emoção. Como da ordem da emoção têm sido os comentários e as notícias sobre todo este caso. Que está em segredo de justiça.

Última hora

Portugal é hoje um país um pouco mais asseado.

Um pouco de poesia

Teresa Gouveia no ministério dos Negócios Estrangeiros?
- Sigamos o cherne...

O caso Schneidermann e Portugal

Há uma petição a correr em favor de Daniel Schneidermann, jornalista despedido pelo Le Monde, após ter acusado a empresa de se comportar como um «clã siciliano».
Não assino porque:
1. O caso passa-se em França, o que não é dispiciendo. Todos os meses são publicados ensaios e livros sobre a enorme promiscuidade entre jornalistas, políticos e empresários. Trata-se de uma luta de tubarões. Schneidermann é apenas mais um sintoma desse mal-estar.
2. Entendo que, numa sociedade aberta, a liberdade de expressão tem mais a ver com os limites do que com o valor em absoluto. Nem tudo pode ser dito em todo o lado, isso parece-me óbvio. Isto não põe em causa o sagrado princípio de que sem a liberdade de expressão não há democracia.
3. Não acho que o dever de lealdade dentro das empresas seja uma coisa menor.
4. Parece-me que as pessoas que em Portugal assinaram a petição poderiam ter-se ocupado de algo bem mais importante e, já agora, bem mais próximo - a concentração da propriedade dos media em Portugal, essa sim, capaz de pôr em risco a liberdade de expressão e a própria democracia. E não falo de qualquer ameaça - falo do que já existe.

Alucinado, re-bem-vindo

Porra, o gajo curou-se da constipação, mas agora meteu-se nos cogumelos...
[Actualização: Ah, e retiro as acusações relativas ao mau português. Fónix...]

[Brel] Les Bonbons

O humor é tão raro nas canções... Do humor inteligente, então, nem se fala.
Também nisso, Brel foi diferente. Na sua discografia, há uma mão cheia de canções de puro humor e apontamentos humorísticos em muitas outras. É claro que estamos perante um humor um pouco amargo, sarcástico, auto-crítico.
Os «Bonbons» talvez seja o melhor exemplo de tudo isto. Uma canção claramente auto-biográfica (o seu relacionamento com as mulheres teve tanto de encantamento como de desilusão...), que Brel escreveu em 1964 e que revisita três anos depois, ainda mais bem humorado, ainda mais azedo. «Madeleine», de 1961, é outra variação sobre o mesmo tema.

Les Bonbons (1964)
Je vous ai apporté des bonbons
Parce que les fleurs c'est périssable
Puis les bonbons c'est tellement bon
Bien que les fleurs soient plus présentables
Surtout quand elles sont en boutons
Mais je vous ai apporté des bonbons

J'espère qu'on pourra se promener
Que madame votre mère ne dira rien
On ira voir passer les trains
A huit heures je vous ramènerai
Quel beau dimanche pour la saison
Je vous ai apporté des bonbons

Si vous saviez ce que je suis fier
De vous voir pendue à mon bras
Les gens me regardent de travers
Y en a même qui rient derrière moi
Le monde est plein de polissons
Je vous ai apporté des bonbons

Oh oui Germaine est moins bien que vous
Oh oui Germaine elle est moins belle
C'est vrai que Germaine a des cheveux roux
C'est vrai que Germaine elle est cruelle
Ça vous avez mille fois raison
Je vous ai apporté des bonbons

Et nous voilà sur la Grand'Place
Sur le kiosque on joue Mozart
Mais dites-moi que c'est par hasard
Qu'il y a là votre ami Léon
Si vous voulez que je cède ma place
J'avais apporté des bonbons

Mais bonjour mademoiselle Germaine

Je vous ai apporté des bonbons
Parce que les fleurs c'est périssable
Puis les bonbons c'est tellement bon
Bien que les fleurs soient plus présentables...


Les Bonbons 67
Je viens rechercher mes bonbons
Vois-tu Germaine j'ai eu trop mal
Quand tu m'as fait cette réflexion
Au sujet de mes cheveux longs
C'est la rupture bête et brutale
Je viens rechercher mes bonbons

Maintenant je suis un autre garçon
J'habite à l'hôtel George-V
J'ai perdu l'accent bruxellois
D'ailleurs plus personne n'a cet accent-là
Sauf Brel à la télévision
Je viens rechercher mes bonbons

Quand père m'agace moi
Je lui fais zop
Je traite ma mère de névropathe
Faut dire que père est vachement bath
Alors que mère est un peu snob
Mais enfin tout ça hein c'est le conflit des générations
Je viens rechercher mes bonbons

Et tous les samedis soir que je peux
Germaine j'écoute pousser mes cheveux
Je fais "glouglou" je fais "miam miam"
Je défile criant "Paix au Vietnam"
Parce qu'enfin enfin donc j'ai mes opinions
Je viens rechercher mes bonbons

Oh mais ça c'est votre jeune frère Mademoiselle Germaine
C'est celui qu'est flamingant
Je vous ai apporté des bonbons
Parce que les fleurs c'est périssable
Puis les bonbons c'est tellement bon
Bien que les fleurs soient plus présentables
Surtout quand elles sont en boutons
Je vous ai apporté des bonbons.

Infinitamente

Reparei hoje que o disco duplo com os sucessos de Jacques Brel [e com os cinco inéditos] chama-se «Infiniment». Brel gostava muito de advérbios... a força prolongada no tempo.
Reparo agora que também eu gosto muito de advérbios. Absolutamente.

Flash... Flash... Flash...

Flash... Porra... querem ver que o gajo se vai embora (e logo cum ganda erro de protugês no adeuz...).
Flash... Porque é que este adepto da música tradicional se lembrou agora de uma canção inglesa chamada «Vasculhando na lixeira»?
Flash... Cohen says: «Tomai este blogue e embelezai-o até mais não». E assim se fez!
Flash... Um Alfacinha é um Alfacinha é um Alfacinha é um Alfacinha é um Alfacinha...
Flash... ... ... ... ... ... ...
Flash... Aqui, tranquilamente, comem-se marmelos, faz-se geleia, pisa-se uva.
Flash... Aqui, silêncio.

Small little people

O que mais entristece é a pequenez de tudo isto.
A cunhazita, a desculpazita esfarrapada, a saídazita sem honra...

Rewind

A SIC acaba de informar que o Conselho Nacional do PSD está a discutir a remodelação do Governo. Ao vivo.
A política portuguesa está a regressar, aceleradamente, ao passado. O que não é necessariamente mau. Mas é divertido.
E o Luís Delgado já disse duas vezes que o Governo tem muita dificuldade em gerir crises mediáticas...

mardi 7 octobre 2003

Poesia, ciência...

A inscrição lá está, há mais de duas décadas, na Estrada de Benfica: «O ar condicionado mata as pessoas». Assinada com o A anarquista.
Nos últimos anos, a ciência mostrou que, além de fazer mal à saúde, o ar condicionado pode, de facto, matar.
Sempre me pareceu que a poesia precede a ciência. Que a ciência é uma espécie de poesia por outras vias.
[Dedicado aos prémios Nobel da Medicina, Física e Química, que todos os anos são distinguidos por trabalhos científicos importantíssimos, mas que me soam sempre a poesia.]

Cruz Quebrada

Caiu o MNE.
Só vou ter opinião formada domingo à noite, após ter ouvido todos os comentadores independentes nas três televisões. Eles certamente que saberão elogiar a verticalidade de uns, a coragem de outros, a frontalidade da generalidade.
[Actualização: estou a ver na SIC Santana Lopes zurzir em Ferro Rodrigues (!!!) a propósito deste caso e só agora reparo que me esqueci de pôr a palavra independentes em itálico. Que chatice!]

Espírito Santo da Cunha

- Já falaste com o teu chefe de gabinete?
- Não. Falei com o teu...

[Brel] Les Bourgeois

Imaginem a cena - um casino cheio de gente abonada, à volta de mesas não menos abonadas. E Brel a cantar «Os burgueses são como os porcos...». Delirante. Passou a semana passada num documentário do Arte.
Os «burgueses» de que fala Brel não são os burgueses da luta de classes. Ele próprio nasceu numa família burguesa e a canção até retrata a boémia dos filhos da burguesia, com passeios à beira mar, muita cerveja, carros descapotáveis, etc. Os burgueses de que fala a canção (e de que falam tantas canções de Brel...) são os cons, uma das expressões mais usadas pelo artista. São os imbecis, os bem instalados, os que não têm um objectivo na vida, uma pontinha de rebeldia.
A canção é de 1962, letra de Brel, música de Jean Corti.

Le coeur bien au chaud
Les yeux dans la bière
Chez la grosse Adrienne de Montalant
Avec l'ami Jojo
Et avec l'ami Pierre
On allait boire nos vingt ans
Jojo se prenait pour Voltaire
Et Pierre pour Casanova
Et moi, moi qui étais le plus fier
Moi, moi je me prenais pour moi
Et quand vers minuit passaient les notaires
Qui sortaient de l'hôtel des "Trois Faisans"
On leur montrait notre cul et nos bonnes manières
En leur chantant

Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient bête
Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient...

Le coeur bien au chaud
Les yeux dans la bière
Chez la grosse Adrienne de Montalant
Avec l'ami Jojo
Et avec l'ami Pierre
On allait brûler nos vingt ans
Voltaire dansait comme un vicaire
Et Casanova n'osait pas
Et moi, moi qui restais le plus fier
Moi j'étais presque aussi saoul que moi
Et quand vers minuit passaient les notaires
Qui sortaient de l'hôtel des "Trois Faisans"
On leur montrait notre cul et nos bonnes manières
En leur chantant
Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient bête
Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient...

Le coeur au repos
Les yeux bien sur terre
Au bar de l'hôtel des "Trois Faisans"
Avec maître Jojo
Et avec maître Pierre
Entre notaires on passe le temps
Jojo parle de Voltaire
Et Pierre de Casanova
Et moi, moi qui suis resté le plus fier
Moi, moi je parle encore de moi
Et c'est en sortant vers minuit Monsieur le Commissaire
Que tous les soirs de chez la Montalant
De jeunes "peigne-culs" nous montrent leur derrière
En nous chantant

Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient bête
Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient...

lundi 6 octobre 2003

Sai ministro

O Notas Verbais, embora abusando das reticências, avança com uma lista (picante...) de putativos MNE. À laia de bónus, ficamos a saber que Carlos Cruz é, afinal, solteiro. O mundo não pára... de nos espantar.

Re-reflexo

Afinal, o Reflexos de azul eléctrico apenas mudou de casa. Ainda bem.

O ministro, a filha, o outro ministro e o chefe de gabinete dos dois

Se tudo for como a SIC está a contar (e, se não for, o desmentido terá de ser, pelo menos, tão bem fundamentado como a notícia), o caso da filha do ministro dos Negócios Estrangeiros favorecida (e não «alegadamente favorecida», como todos os telejornais dizem) no acesso à universidade é, afinal de contas, o realíssimo cambalacho de que se suspeitava desde o início.
E, por amor de Deus, não nos venham com histórias da carochinha sobre a «palavra de honra», a «desmesurada pressão dos media», ou lições de ética ou de «estado de direito» feitas à medida para a ocasião. Não somos parvos.

Diálogo kiss kiss

- Jotinha, dá-me um beijo!
- Toma lá muitos.

Marmelada? Alinho...

O Adufe anda aí a preparar um fim-de-semana de marmelada. Espero que não se esqueça de mim.

Música de fim-de-semana

Pelos contadores (sim, também tenho, não são só as pessoas importantes...) reparo que alguns dos meus queridos leitores aproveitaram o fim-de-semana ameno e foram celebrar a implantação da República na casa de praia ou no monte alentejano. Como de costume, alguém teve de ficar na cidade a trabalhar no duro. E adivinhem quem foi...
À falta de melhor, estive a jogar pingue-pongue com o Jaquinzinhos. Eu que nada percebo de pingue e ainda menos de pongue.
Quem não quiser dar-se à trabalheira de tentar perceber o que pingue-pongueámos, dirija-se ao Crítico musical. Para mim, só tem um defeito - é daqueles críticos que têm a mania de contar o fim dos filmes.

O Jorge

Jorge Moreira da Silva sempre me pareceu um barrosista intrínseco: ele sabia que um dia haveria de ser secretário de Estado, só não sabia era quando... e de quê.

Kay, o lírico

Graças ao autêntico serviço público que é o Valete Fratres, tivémos acesso a uma entrevista que David Kay, o chefe da missão americana que foi ao Iraque à procura de armas químicas, deu à Fox News.
Vale a pena ler. Para percebermos a teia de mentiras urdida pelo Governo dos EUA. Para percebermos as críticas que se fazem aos media a propósito deste tema. E para percebermos a enorme mistificação que está em marcha. Transcrevo uma parte, com anotações a negro, só a título de exemplo. O resto é do mesmo estilo.

TONY SNOW, FOX NEWS: Joining us to determine what the Kay report does and does not say is David Kay, the CIA special adviser on Iraqi weapons of mass destruction programs and head of the Iraqi Survey Group. Mr. Kay, welcome.

DAVID KAY, CHIEF IRAQ WEAPONS INSPECTOR: Happy to be with you, Tony.

SNOW: Let's take a quick look at some of the headlines from this week characterizing your report. I want to get your reaction to them.
Here we see The New York Times: "No Illicit Arms." The Washington Post: "No Banned Weapons." The Los Angeles Times: "No Illicit Iraqi Arms." USA Today: "No Illegal Weapons."
Is that what you found?

KAY: Well, we certainly found that - have not yet found illicit arms. But that's not the only thing the report says. [Espantoso - os media dão as notícias tentando distrinçar o fundamental do acessório. O fundamental, neste caso, é saber se a missão encontrou ou não as tais armas. Não encontrou, os jornais dizem isso e são acusados de omitir a verdade. Insisto: espantoso!] In fact, I'm sort of amazed at what was powerful information about both their intent and their actual activities that were not known and were hidden from U.N. inspectors seems not to have made it to the press. This is information that, had it been available last year, would have been headline news. [Ups... parece que há informação nova, importantíssima, que foi omitida pelos jornais. Vamos tentar perceber de que se trata.]

SNOW: One of the things that you found, for instance, is the Mukhabarat, the secret service, in fact had a vigorous weapons program of its own. Tell us about it.

KAY: Well, we have found right now - and we're still finding them - over two dozen laboratories that were hidden in the Iraqi intelligence service, the Mukhabarat, were not declared to the U.N., had prohibited equipment, and carried on activities that should have been declared. [Os serviços secretos tinham umas coisas tenebrosas, que os inspectores da ONU não detectaram, presumimos. Mas, atenção, o segredo deve ser guardado. Por isso, o mr Kay nada mais diz.]
Now, at the minimum, they kept alive Iraq's capability to produce both biological and chemical weapons. We found assassination tools. [Quais mr Kay? Facas do mato? Fisgas atómicas?] So we know that, in fact, they had a prohibited intent to them.

SNOW: You also talk about reference strains of biological agents. What does that mean?

KAY: Well, that's one of the most fascinating stories. An Iraqi scientist in 1993 hid in his own refrigerator reference strains for - active strains, actually would've - were still active when we found them - Botulinum toxin, one of the most toxic elements known.
He was also asked to hide others, including anthrax. After a couple of days, he turned them back because he said they were too dangerous; he had small children in the house.
This is typical. We now have three cases in which scientists have come forward with equipment, technology, diagrams, documents and, in this case, actual weapons material, reference strains and Botulinum toxin, that they were told to hide and that the U.N. didn't find. [Em 1993, há 10 anos, um cientista levou umas coisas e guardou no frigorífico lá de casa. Mr Kay, andámos a ver muito Walt Disney ultimamente...]

SNOW: You believe that there are similar strains perhaps throughout Iraq right now?

KAY: We're actively searching for at least one more cache of weapons - of strains that we know exists. [Atenção! Muito importante. Andam à procura de mais um frigorífico... Não esqueçamos, são mais de mil peritos da CIA, a mais eficiente agência do mundo, vão acabar por encontrar...]

SNOW: This is a cache that had been referred to by a scientist. The first bit of information paid off; you're still looking for the second one?

KAY: Exactly.

SNOW: And the second one is a large cache.

KAY: It's much larger. It contains anthrax, and that's one reason we're actively interested in getting it. [Reparem: eles ainda não encontraram o tal segundo frigorífico na casa de um cientista. Mas já sabem que é muito maior que o primeiro e que contém anthrax... Será que a avião que há-de levar essa prova dos EUA para o Iraque já chegou entretanto a Bagdad?]

[Brel] Les Flamandes

Brel teve uma relação complicada com a Flandres natal. Se, por um lado, compôs verdadeiros hinos de encantamento, foi, por outro lado, bastante corrosivo, principalmente com uma certa burguesia, da qual fazia parte. Escrita em 1959, «Les Flamandes» tornou-se quase uma canção maldita, apesar de nem ser das mais sarcásticas. Chegou a estar interdita na rádio e ficou célebre um espectáculo, em Lovaina, em que a polícia ocupou posições na sala quando se soube que o programa incluia «Les Flamandes». Tudo acabou em bem, com Brel a romper uma tradição (nunca repetia canções nos encores...) e a entoar «Les Flamandes» uma segunda vez, por entre uma monunental ovação.

Les Flamandes dansent sans rien dire
Sans rien dire aux dimanches sonnants
Les Flamandes dansent sans rien dire
Les Flamandes ça n'est pas causant
Si elles dansent c'est parce qu'elles ont vingt ans
Et qu'à vingt ans il faut se fiancer
Se fiancer pour pouvoir se marier
Et se marier pour avoir des enfants
C'est ce que leur ont dit leurs parents
Le bedeau et même Son Eminence
L'Archiprêtre qui prêche au couvent
Et c'est pour ça et c'est pour ça qu'elles dansent
Les Flamandes
Les Flamandes
Les Fla - Les Fla - Les Flamandes

Les Flamandes dansent sans frémir
Sans frémir aux dimanches sonnants
Les Flamandes dansent sans frémir
Les Flamandes ça n'est pas frémissant
Si elles dansent c'est parce qu'elles ont trente ans
Et qu'à trente ans il est bon de montrer
Que tout va bien que poussent les enfants
Et le houblon et le blé dans le pré
Elles font la fierté de leurs parents
Et du bedeau et de Son Eminence
L'Archiprêtre qui prêche au couvent
Et c'est pour ça et c'est pour ça qu'elles dansent
Les Flamandes
Les Flamandes
Les Fla - Les Fla - Les Flamandes

Les Flamandes dansent sans sourire
Sans sourire aux dimanches sonnants
Les Flamandes dansent sans sourire
Les Flamandes ça n'est pas souriant
Si elles dansent c'est qu'elles ont septante ans
Qu'à septante ans il est bon de montrer
Que tout va bien que poussent les petits-enfants
Et le houblon et le blé dans le pré
Toutes vêtues de noir comme leurs parents
Comme le bedeau et comme Son Eminence
L'Archiprêtre qui radote au couvent
Elles héritent et c'est pour ça qu'elles dansent
Les Flamandes
Les Flamandes
Les Fla - Les Fla - Les Flamandes

Les Flamandes dansent sans mollir
Sans mollir aux dimanches sonnants
Les Flamandes dansent sans mollir
Les Flamandes ça n'est pas mollissant
Si elles dansent c'est parce qu'elles ont cent ans
Et qu'à cent ans il est bon de montrer
Que tout va bien qu'on a toujours bon pied
Et bon houblon et bon blé dans le pré
Elles s'en vont retrouver leurs parents
Et le bedeau et même Son Eminence
L'Archiprêtre qui repose au couvent
Et c'est pour ça qu'une dernière fois elles dansent
Les Flamandes
Les Flamandes
Les Fla - Les Fla -Les Flamandes.

dimanche 5 octobre 2003

Um exemplo

Pedi um referendo a sério e acho que exagerei. Nessa catadupa de pedidos, incluí um comportamento mais responsável, mais pedagógico, mais empenhado dos media.
Caiu-me agora nas mãos um bom exemplo.
A 16 de Novembro, vai haver eleições regionais na Catalunha. Os principais candidatos são Pasqual Maragall (Partido Socialista da Catalunha) e Artur Mas (Convergència i Unió). O La vanguardia (não vale a pena fazer link, é pago), principal jornal de Barcelona, convidou ambos para um debate (o primeiro deste tipo em Espanha), nas suas instalações. Decorreu a 30 de Setembro, orientado pelo director do jornal, José Antich, e na presença de um painel de comentadores. Durou 2 horas e 56 minutos.
O La Vanguardia começou hoje a publicar o debate, com 8 páginas mais uma de comentários. E vai continuar segunda e terça-feira. Ao todo, serão mais de vinte páginas, com grafismo atrante, legíveis.
Quando o que está em causa é importante e os media entendem o seu papel na sociedade, tudo é possível.

Honra e cinismo

Como Pacheco Pereira, sou uma pessoa com poucas certezas e muitas perplexidades. Por exemplo, se o Governo não fosse desta cor, valeria a pena teorizar sobre a «honra»?
Como Pacheco Pereira, digo que não gostaria de ser cínico. E que gostaria de acreditar que todas as palavras, todas as análises, devem ser tidas em conta pelo seu valor facial.
Mas, na política, não é possível voltar à idade da inocência. Porque ela nunca existiu.

O referendo, outra vez

Durão Barroso considera que, «muito provavelmente», a ratificação portuguesa da Constituição europeia terá de passar por um referendo. E Jorge Sampaio alerta para o «desastre» que poderá ser um referendo «precipitado».
Concordo com os dois.
[E concordo muito mais depois de ver a França e a Alemanha dizerem: «Ou aprovam esta Constituição ou acabam-se os fundos estruturais». É contra esta prepotência que devemos lutar. Antes fora da Europa, antes sem fundos estruturais, do que ficarmos numa Europa assim.]
O que está em causa é excessivamente importante para passar sem referendo. E, por isso mesmo, terá de ser um referendo a sério.
Eu sei que estou a pedir o impossível. Estou a pedir que os políticos falem claro. Que não misturem alhos com bugalhos. Que não misturem a Europa com a filha do ministro. Que não confundam Constituição com Oposição. Nem com Situação.
Que as televisões façam debates na hora nobre. Que a Manuela Moura Guedes, por uma vez, não grite muito. E, já agora, não nos dê a sua opinião. Não nos interessa. Que os jornais sejam mais pedagógicos que demagógicos. Que não entrem em pingue-pongues cheios de soundbytes, mas sem sumo. Que façam fichas explicativas. Que apelem ao voto. Se quiserem, que escolham «sim» ou «não», mas que apelem ao voto.
Que os portugueses, por uma vez, se interessem pelo seu futuro e se informem. Que não façam de conta que nada disto é com eles. Que não deixem que sejam os outros, o vizinho do lado ou o vizinho da Estónia, a decidirem o seu futuro. E que votem informados. Que votem.
Estou a pedir que o referendo não seja feito num domingo de Verão. Estou a pedir que o referendo se faça, se necessário, em dois dias, como nos países do Terceiro Mundo. Que haja carrinhas das câmaras para transportar gente. Que na CP, Carris, Metro do Porto e cacilheiros de toda a parte não se pague bilhete.
Estou a pedir... Eu sei, é pedir muito.

Buá!

Papá, papá! Este menino não quer brincar mais comigo. Buá!

Companhia das Abóboras

Hoje, tivémos doce de abóbora com queijo fresco à sobremesa. O doce era da Companhia das Abóboras. Num mundo longe da perfeição, foi para ali que chamámos a Virginia Astley. Para a companhia das abóboras.

Uma aposta

Às vezes, vale a pena correr o risco. Ir atrás da promessa. É o que vou fazer com este O rosto com que a Europa fita. Não conheço pessoalmente nenhum dos três. O Joel conheço-o, mas apenas da escrita, dos jornais, dos livros e dos blogues. Há qualquer coisa, na ideia, no texto inicial, que promete muito. Que me agrada. Vá lá, comecem. Não me deixem ficar mal.

Libertem os prisioneiros!

Libertem os prisioneiros - viva o estado de direito. Hip, Hip, Hurra!

[Brel] Orly

E porque hoje é domingo...
Um ano antes de morrer, Brel viajou da Polinésia a Paris para gravar um derradeiro disco (há uma década que não editava originais). Chama-se simplesmente «Brel» e é o único que não tem o seu rosto na capa, mas apenas nuvens. Os brelianos encontram nessa obra vastos indícios testamentários, desde a canção «Jojo», dedicada ao seu melhor amigo, já falecido, na qual surgem várias referências à morte, a, por exemplo, «Vieillir», «Voir un ami pleurer», ou ainda «Le Bon Dieu». Há quem considere este o melhor disco de Brel. Quem ainda não o possui, tem agora a oportunidade de comprar uma edição especial que contém cinco canções gravadas também em 77 e nunca editadas.
A canção de que mais gosto é «Orly». A ideia, a força da poesia, o movimento musical, claramente inspirado na Marcha Fúnebre... E não é apenas uma canção, é quase um filme. É impossível ouvirmos «Orly» sem «vermos» a cena, sem nos pormos no papel de um dos protagonistas. A referência a Becaud remete para o sucesso «Dimanche a Orly».

Ils sont plus de deux mille
Et je ne vois qu'eux deux
La pluie les a soudés
Semble-t-il l'un à l'autre
Ils sont plus de deux mille
Et je ne vois qu'eux deux
Et je les sais qui parlent
Il doit lui dire je t'aime
Elle doit lui dire je t'aime
Je crois qu'ils sont en train
De ne rien se promettre
Ces deux-là sont trop maigres
Pour être malhonnêtes

Ils sont plus de deux mille
Et je ne vois qu'eux deux
Et brusquement il pleure
Il pleure à gros bouillons
Tout entourés qu'ils sont
D'adipeux en sueur
Et de bouffeurs d'espoir
Qui les montrent du nez
Mais ces deux déchirés
Superbes de chagrin
Abandonnent aux chiens
L'exploit de les juger

La vie ne fait pas de cadeau
Et nom de Dieu c'est triste Orly
Le dimanche
Avec ou sans Bécaud

Et maintenant ils pleurent
Je veux dire tous les deux
Tout à l'heure c'était lui
Lorsque je disais « il »
Tout encastrés qu'ils sont
Ils n'entendent plus rien
Que les sanglots de l'autre
Et puis,
Et puis infiniment
Comme deux corps qui prient
Infiniment lentement
Ces deux corps se séparent
Et en se séparant
Ces deux corps se déchirent
Et je vous jure qu'ils crient
Et puis ils se reprennent
Redeviennent un seul
Redeviennent le feu
Et puis se redéchirent
Se tiennent par les yeux
Et puis en reculant
Comme la mer se retire
Il consomme l'adieu
Il bave quelques mots
Agite une vague main
Et brusquement il fuit
Fuit sans se retourner
Et puis il disparaît
Bouffé par l'escalier

La vie ne fait pas de cadeau
Et nom de Dieu c'est triste Orly
Le dimanche
Avec ou sans Bécaud

Et puis il disparaît
Bouffé par l'escalier
Et elle, elle reste là
Cœur en croix, bouche ouverte
Sans un cri sans un mot
Elle connaît sa mort
Elle vient de la croiser
Voilà qu'elle se retourne
Et se retourne encore
Ses bras vont jusqu'à terre
ça y est elle a mille ans
La porte est refermée
La voilà sans lumière
Elle tourne sur elle-même
Et déjà elle sait
Qu'elle tournera toujours
Elle a perdu des hommes
Mais là elle perd un amour
L'amour le lui a dit
Revoilà l'inutile
Elle vivra de projets
Qui ne feront qu'attendre
La revoilà fragile
Avant que d'être à vendre

Je suis là je la suis
Je n'ose rien pour elle
Que la foule grignote
Comme un quelconque fruit.

samedi 4 octobre 2003

Iraque - desafios à inteligência

Há coisas que desafiam a inteligência.
Os EUA enviaram ao Iraque, há três meses, uma vastíssima equipa de peritos comandada por David Kay (da CIA) que acaba de apresentar o seu primeiro relatório sobre as famosas armas de destruição maciça (WMD). O relatório (ou melhor, a apresentação que Kay faz do relatório está disponível aqui). Basicamente, não encontraram nada. Limitam-se a confirmar o que já se sabia antes da guerra: que Saddam já usara WMD e que os EUA estavam convencidos de que continuava a ter ou tinha planos para ter. Provas, nada. Nem antes, nem agora. Ao fim de três meses, dizem que conheceram umas pessoas e que ainda tencionam falar com elas (não fosse isto trágico, seria de partir o côco a rir...).
Perante estas fantásticas declarações, George W. evacuou um daquels soundbytes de que os media tantos gostam: que a verdade é que o mundo está mais seguro sem Saddam.
Até pode ser verdade. Como é verdade que o fulano era um ditador, um facínora que ninguém gostaria de ter como vizinho. Mas, antes da guerra, como agora (a memória ninguém nos tira...), não é isso que está em causa - o que está em causa são os argumentos utilizados pela Administração americana para desencadear a guerra. São esses argumentos que a Administração americana tem de demonstrar para que não continuemos a pensar que se tratou tudo de uma valente palhaçada.
[Este texto foi escrito após ter lido um dos gurus da blogosfera portuguesa, o idiota chapado do Andrew Sullivan. Leiam para crer.]

Ultrapassagens perigosas

O homem ia a 160 na autoestrada quando foi travado por uma patrulha da Brigada de Trânsito. E perguntou-se: «Porquê eu, se todos andam a 160 e muitos até a 200?» Azar, teve azar. Foi apanhado.
[Dedicado ao Jaquinzinhos e ao Abrupto, que, com a sua fobia aos media/jornalistas e as suas teorias da desresponsabilização, só têm para nos oferecer a impunidade.]

[Brel] Le Plat Pays

«Des vagues de dunes pour arrêter les vagues». Uma das mais líricas canções de Brel (letra e música, 1962), dedicada à Flandres natal, mas que a Bélgica adoptou. Goscinny e Uderzo, em «Astérix entre os Belgas», não resistiram à citação: «Isto não é muito acidentado por aqui! - Pois é pá, neste plano país que é o meu, só temos oppidums por montanhas».

Avec la mer du Nord pour dernier terrain vague
Et avec des vagues de dunes pour arrêter les vagues
Et de vagues rochers que les marées dépassent
Et qui ont à jamais le coeur à marée basse
Avec infiniment de brumes à venir
Avec le vent de l'est écoutez-le tenir
Le plat pays qui est le mien

Avec des cathédrales pour uniques montagnes
Et de noirs clochers comme mâts de cocagne
Où des diables en pierre décrochent les nuages
Avec le fil des jours pour unique voyage
Et des chemins de pluie pour unique bonsoir
Avec le vent d'ouest écoutez-le vouloir
Le plat pays qui est le mien

Avec un ciel si bas qu'un canal s'est perdu
Avec un ciel si bas qu'il fait l'humilité
Avec un ciel si gris qu'un canal s'est pendu
Avec un ciel si gris qu'il faut lui pardonner
Avec le vent du nord qui vient s'écarteler
Avec le vent du nord écoutez-le craquer
Le plat pays qui est le mien

Avec de l'Italie qui descendrait l'Escaut
Avec Frida la Blonde quand elle devient Margot
Quand les fils de novembre nous reviennent en mai
Quand la plaine est fumante et tremble sous juillet
Quand le vent est au rire quand le vent est au blé
Quand le vent est au sud écoutez-le chanter
Le plat pays qui est le mien.

Metamorfoses

O Icosaedro é um blogue que mistura com sabedoria e sensibilidade a música, a palavra e a imagem. Agora, vai fazer uma experiência muito interessante de transfiguração contínua. Vou acompanhar.

vendredi 3 octobre 2003

Intervalo

Gosto da maneira como o Retórica e Persusão coloca a questão da filha do ministro.
Agora, se não se importam, vou ouvir a Virginia Astley. Tenho é de pedir ao Retorta ou ao Alfacinha que ponham o hi-fi bem alto. Só não peço ao Cibertúlia porque ainda não lhe conheço a geografia.
A Virginia casava bem era com uma daquelas fabulosas fotos da Ria Formosa feitas pelo Jaquinzinhos. Mas ele deve ter ido à bola. É um fanático...

Pagani, outro

Falei de um Pagani, o Aviz devolveu-me outro. O Aviz falou-me do militante de esquerda, antiglobalização avant la lettre.
Quando falei do Pagani ao Aviz era deste que queria falar.
O Pagani que, em 1975, divulgou o «Plaidoyer pour ma terre», uma das defesas mais emocionadas (e mais fundamentadas...) que conheço do direito de Israel à existência. Radical nos propósitos, sem o ser nos métodos.

Diplomatas, filhas e peixe frito

O Jaquinzinhos lamenta a sorte dos filhos dos diplomatas. A única que conheço, além de ser muito gira, só ganhou com a itinerância do pai - é culta, conhece Nova Iorque como a palma da mão, conhece o resto do mundo como a palma da outra mão, tem montes de amigos em todo o lado, incluindo Lisboa, conhece os melhores restaurantes de Lisboa, a noite de Lisboa como eu nunca conhecerei.
O Jaquinzinhos diz depois que a filha do ministro até teve sorte - foi estudar para o estrangeiro. Filha minha não iria. SImplesmente porque não poderia pagar. Eu e milhões de portugueses...
O Jaquinzinhos diz depois que se está «nas tintas» para os ministros Lynce e Cruz. E, aí, quem fica triste sou eu: não lhe conhecia esta falta de patriotismo.
O Jaquinzinhos fala depois de futebol. Aí, nada digo. Nunca fui à bola.

Notícias de fidelidade maciça

Reparem nesta notícia. A equipa de peritos americanos (mais de mil...) enviados por George W. ao Iraque à procura de armas de destruição maciça, traços delas, planos para as fazer, qualquer-coisinha-por-amor-de-deus, voltou de mãos a abanar. A Fox News, voz do dono, perdão, porta-voz da Casa Branca, bem se esforça. Mas nada. É uma daquelas notícias cheias de «mas», do estilo «não encontrámos armas de destruição de maciça... mas que las hay, las hay...» Notícias destas é que alegram a blogosfera nacional. É só objectividade, clareza, verdade...
[Dedicado ao Jaquinzinhos, tão triste com as notícias da filha do ministro. Qual ministro? Mas há algum problema com a filha do ministro?]

Do que estão à espera

Definitivamente, está tudo doido. Nem sei mesmo se não será perigoso sair de casa hoje...
Um ministro está de consciência tranquila, o outro manda a filha para o estrangeiro, a oposição acha que ainda é necessário discutir a coisa no parlamento, anda uma data de gente às voltas com o Código Civil... E giroflé, giroflá...
Mas do que estão à espera os ministros? E o primeiro-ministro?

Outro?

Mas o que é isto? Uma pessoa acorda, fica três horas sem Netcabo, isolada do mundo, impedida de se ligar ao mundo, e depois tecla, tecla, e o mundo começa a fragmentar-se, a esboroar-se. Foi-se a formiga, foi-se o filósofo. Mas o que se passa? Tá tudo doido? Fui eu que não percebi alguma coisa? Que faço eu aqui? Que mais queres tu de mim? Onde estavas tu no 25 de Abril?

Major Tom

Enquanto na terra se discutem minudências, tais como as médias e métodos de entrada nos cursos de medicina, ou os requisitos subjectivos para a realização de referendos europeus, algures no torrão pátrio alguém fazia História com H muito grande - Portugal já tem a sua formiga no espaço. Bon voyage.

[Brel] Quand On N'A Que L'Amour

Em 1956, os tanques soviéticos esmagaram a tentativa de revolta na Hungria. E Brel escreveu «Quand on n'a que l'amour, Pour parler aux canons, Et rien qu'une chanson, Pour convaincre un tambour». Tal bastou para que a canção ficasse associada a esse momento histórico, tendo sido muito passada pela rádio quando, na década seguinte, os tanques de Moscovo entraram pela Checoslováquia dentro. Mas a verdade é que Brel não tem canções com referências imediatas à realidade, pelo que cada um ouve nelas o que quer.
Esta foi um dos primeiros grandes sucessos do cantor, tendo sido regravada, com orquestrações diferentes, várias vezes. A última foi no início da década de 70, quando Brel deu novas roupagens a algumas canções mais antigas.

Quand on n'a que l'amour
A s'offrir en partage
Au jour du grand voyage
Qu'est notre grand amour
Quand on n'a que l'amour
Mon amour toi et moi
Pour qu'éclatent de joie
Chaque heure et chaque jour
Quand on n'a que l'amour
Pour vivre nos promesses
Sans nulle autre richesse
Que d'y croire toujours
Quand on n'a que l'amour
Pour meubler de merveilles
Et couvrir de soleil
La laideur des faubourgs
Quand on n'a que l'amour
Pour unique raison
Pour unique chanson
Et unique secours

Quand on n'a que l'amour
Pour habiller matin
Pauvres et malandrins
De manteaux de velours
Quand on n'a que l'amour
A offrir en prière
Pour les maux de la terre
En simple troubadour
Quand on n'a que l'amour
A offrir à ceux-là
Dont l'unique combat
Est de chercher le jour
Quand on n'a que l'amour
Pour tracer un chemin
Et forcer le destin
A chaque carrefour
Quand on n'a que l'amour
Pour parler aux canons
Et rien qu'une chanson
Pour convaincre un tambour

Alors sans avoir rien
Que la force d'aimer
Nous aurons dans nos mains
Amis le monde entier.

O referendo - interlúdio

Como é possível que a polémica sobre as declarações de Jaime Gama acerca do referendo europeu prossigam nos próximos dias, gostaria de esclarecer duas ou três coisas, para evitar equívocos.
1. Sou totalmente favorável ao projecto europeu e à participação de Portugal. Não gosto é de caminhar vendado.
2. Se houvesse agora um referendo, não saberia como votar, porque não me sinto suficientemente informado.
3. Não tenho posições dogmáticas sobre os referendos. Percebo os pruridos de alguma esquerda, pelo facto de terem perdido os dois que promoveram.
Dito isto, e tendo em conta que sou favorável a um aperfeiçoamento do modelo europeu, considero absolutamente necessário que o passo aparentemente largo que os governos se preparam para dar seja sujeito a consulta popular.
Insisto na ideia de que as declarações de Jaime Gama são muito infelizes e que se inserem num estilo de auto-apoucamento, de menorização, que já não faz sentido, ao fim de três décadas de democracia.
[Detectei textos sobre este assunto no Adufe, Bloguítica, Aviz, Barnabé, Intermitente, Desesperada Esperança, Ai Jasus e Apenas um pouco tarde.]

Jardins da Virginia

Detecto um triálogo entre o Retorta, o Aviz e o Homem-a-Dias sobre a Virginia Astley e o mítico From Gardens Where We Feel Secure.
Há cerca de dois anos que a Amazon (UK) me prometeu o disco. Regularmente, foram-me dando notícias - estava quase a sair, tinha havido um atraso na editora, bla-bla-bla... Salvou-me um amigo que tem a tal edição japonesa.
Quanto aos Young Marble Giants, consegue-se o Colossal Youth na Les Disques du Crépuscule.
Por falar em Retorta, vão espreitando, que ele promete falar de Herbert Pagani, um judeu nascido na Líbia, que canta em francês, viveu em Itália e morreu cedo demais na Florida. O Aviz deve gostar da L'Etoile d'Or. A obra mais admirável de Pagani é uma espécie de ópera pop chamada Megalopolis, na qual se antevê um cenário de pesadelo nuns imaginados Estados Unidos da Europa. Não sei se com referendo, ou sem referendo.
Enfim, meus amigos, isto está tudo ligado...

jeudi 2 octobre 2003

Pai... vou ser médico

Está decidido. Amanhã, vou inscrever-me num curso de medicina.

Armas de desaparição maciça

Nos Estados Unidos, ocorrem neste momento importantes desenvolvimentos no dossier Iraque. Mais particularmente, no que respeita às famosas armas de destruição maciça. E a capa da Economist de amanhã é sobre as WMD. A acompanhar (e a comentar...) com toda a atenção.

Enigma

Escrevi uma vez sobre Henrique Cymerman. Outra vez sobre Freitas do Amaral. Isso bastou para que o Google tenha mandado para aqui alguém que, às 18 e 20 de hoje, andou à procura de henrique de freitas blogspot. Do que andaria à procura?

Não me tirem os três

A passagem dos Stones pelo burgo ressuscitou uma ligeiríssima polémica, a que acho graça, mas que não compro? E tu, és mais Stones ou mais Beatles?
Ora, eu nasci no ano em que aquela rapaziada começou a andar junta. Quer isto dizer que os ouvi em diferido, já convenientemente mastigados e arrumados pela História (com H grande, se não se importam).
E acontece outra coisa: apesar do caos aparente, a estante vai tendo lugar para a diversidade. Assim como, apesar de toda a falta de tempo do mundo, haverá sempre tempo para o essencial.
Compreendo que se tenha de escolher (!?) um Deus, um líder político. Não acho que isso tenha de acontecer necessariamente nas opções estéticas e noutras paixões.
Na música anglo-americana, pop-rock, chamem-lhe o que quiserem, não abdico de três fundadores. E não aceito hierarquizá-los.
Primeiro, vêm os Stones, Dylan, os Beatles (utilizei a ordem alfabética invertida, como poderia ter usado qualquer outra ordenação). Depois, e isso consigo distinguir claramente, vêm os outros. Se meto os Doors, apetece-me logo chamar os Kinks. Se não dispenso o Neil Young, fico danado se me tiram os Velvet.
Há aqueles três, há uma data deles a seguir e há o resto da maralha. A preguiça e a ética impedem-me de fazer listas exaustivas dos dois grupos inferiores. Mas aqueles três são sagrados. Por isso, não mos tirem.

Rufus Wainwright

No dia 24 de Julho, o TdN fez um mês e ofereceu a quem o lia nessa longínqua data uma prenda - a audição, em primeiríssima mão, do novo disco de Rufus Wainwright.
Agora, que o disco está à venda, recordo a sugestão. E reponho o link, entretanto actualizado. Experimentem [Oh, What A World]. Não se arrependerão.

Gama referendo

Jaime Gama decidiu vir à superfície e alerta-nos para a «paródia democrática» que seria um referendo sobre a Constituição europeia.
Diz que seria uma «ilusão de participação popular», insinua que o povo não está informado sobre o assunto e que o referendo seria canibalizado pelo campo anti-europeu.
Tudo isso pode ser verdade. Mas vamos por partes.
Jaime Gama quererá maior «paródia democrática» que eleições legislativas nas quais a escolha é entre o pessoal político do PS e o pessoal político do PSD? Ele que até foi ministro de um governo de Bloco Central, saberá melhor que ninguém que os dois maiores partidos, quando no poder, se limitam a gerir os seus interesses ao sabor das circunstâncias. Que governam por governar, sem ambição nem convicção. Como vimos no passado e veremos num fututo próximo.
E depois há a complexidade das coisas europeias. Mas que complexidade é essa, tão diferente assim da complexidade das coisas domésticas? Se explicarem bem, talvez o povo perceba. Ah, a demagogia e o medo das manipulações... Mas não é assim com tudo?
E há ainda o maldito do consenso. Que se pode romper o sacrossanto consenso europeu. Mas que consenso é esse? PS e PSD estão de acordo nas grandes questões europeias. Pois, mas no papel, também estavam quanto à regionalização e depois foi o que se viu... E querem coisa mais podre em política que o consenso? Ainda para mais um consenso nunca sufragado? Um consenso que se tem medo de levar a votos, não se vá ele estilhaçar?
Jaime Gama tem ainda medo dos anti-europeus. Mas, caro doutor Gama, se os que defendem o modelo proposto forem activos e se empenharem na campanha, o pessoal talvez vá atrás. Eu percebo o problema: no campo do «sim», há muita preguiça, há muita gente instalada à sombra do consenso, há muita gente que é pela Europa porque sim, porque é tão europeu, tão cosmopolita, atravessar o continente de euros no bolso. E, no campo do «sim», há muita gente que não está interessada em discutir nada, porque nada percebe do que está causa.
Os referendos são sempre um risco. Mas já houve referendos sobre várias questões, em países importantes da UE, nos quais ganhou o «não» e o mundo não acabou. O risco do referendo é um risco normal em democracia. Não tenha medo do risco, doutor Gama.

[Brel] La Quête

Em 1968/69, após ter abandonado os palcos, Brel meteu-se numa aventura - levar à cena, em Bruxelas e Paris, «The Man of La Mancha», um musical americano em que se confundem o personagem D. Quixote de La Mancha com o seu autor, Miguel de Cervantes.
As negociações com os americanos foram duríssimas, o contrato incluia um controlo férreo da encenação europeia e o próprio Brel foi obrigado a fazer audições para interpretar o duplo papel principal.
O que é espantoso é que, não sendo as canções (letra e música) originais de Brel, a sua adaptação para francês é extraordinariamente breliana. É o caso de «La Quête», versão de «The Impossible Dream». Há uma versão em português do Brasil («Sonho Impossível», cantada, por exemplo, por Bethânia»).
No palco, como no disco, o sonhador solitário, o rebelde D. Quixote, confunde-se totalmente com Brel, o homem.

Rêver un impossible rêve
Porter le chagrin des départs
Brûler d'une possible fièvre
Partir où personne ne part
Aimer jusqu'à la déchirure
Aimer, même trop, même mal,
Tenter, sans force et sans armure,
D'atteindre l'inaccessible étoile
Telle est ma quête,
Suivre l'étoile
Peu m'importent mes chances
Peu m'importe le temps
Ou ma désespérance
Et puis lutter toujours
Sans questions ni repos
Se damner
Pour l'or d'un mot d'amour
Je ne sais si je serai ce héros
Mais mon coeur serait tranquille
Et les villes s'éclabousseraient de bleu
Parce qu'un malheureux
Brûle encore, bien qu'ayant tout brûlé
Brûle encore, même trop, même mal
Pour atteindre à s'en écarteler
Pour atteindre l'inaccessible étoile.

Sei lá...

Estou a ver o Viegas a entrevistar a Rebelo Pinto na televisão, mas não consigo entender nada do ela que diz - a roupa confunde-se demasiado com o cenário.

mercredi 1 octobre 2003

Convicções

«Acredito absolutamente em tudo o que digo, mesmo quando me contradigo.»
Jacques Brel, 1976

[Brel] Ne me Quitte Pas

Jacques Brel morreu há 25 anos. Faz dia 9 vinte e cinco anos. Nove dias para recordar nove canções, das melhores que alguma vez foram escritas
Quem nunca ouviu uma vez na vida «Ne me Quitte Pas»? Quem nunca escreveu a alguém «je t'offrirai des perles de pluie venues du pays où il ne pleut pas»?
Foi considerada a melhor canção francesa do século XX. Cantada e recantada à volta do mundo. A versão em inglês («If You Go Away», com letra de Mort Shuman) passou pelas vozes de Sinatra ou Barbara Streisand, mas as interpretações mais brelianas são as de Scott Walker ou Marc Almond.
E, no entanto, nem sequer era das canções preferidas de Jacques. Uma vez disse mesmo: «Essa canção persegue-me como uma mulher. Uma espécie de Mathilde.» Muitas das canções de Brel, é preciso recordá-lo, estão intimamente ligadas a momentos da sua vida íntima. E quem ler uma das suas biografias reparará que Brel teve uma vida sentimental um pouco, digamos, turbulenta.
A canção (letra e música de Brel) é de 1959, mas, apesar de ter sido cantada em todos os espectáculos do início de carreira, só mais tarde se tornou um sucesso:

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le cœur du bonheur
Ne me quitte pas

Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vu deux fois
Leurs cœurs s'embraser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas

On a vu souvent
Rejaillir le feu
D'un ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas
.

De que morremos quando morremos?

Começa a chover e uma televisão diz que o mau tempo já matou quatro. Depois de um jornal ter dito que o frio mata que se farta em Portugal. Depois de um ministro, um pouco a custo, ter reconhecido que o calor, oh maldito calor, também mata.
A mim, o que me mata é esta pasmaceira, esta monotonia, este não acontecer nada. Sempre fingindo que é prá amanhã, que é já ali, que é numa geração, que é em 2010. Mas como, se não se vê ninguém começar?